Os cartunistas franceses Charb, Cabu, Tignous e Georges Wolinski foram assassinados no atentado terrorista à redação da revista satírica Charlie Hebdo, em Paris, nesta quarta-feira (7). Segundo a polícia francesa, o ataque com rifles automáticos deixou 12 mortos e 10 feridos (quatro em estado grave).
A revista já havia sido alvo de um ataque, após publicar uma charge do profeta Maomé. Segundo a polícia francesa, que já protegia a sede da Charlie Hebdo desde 2006, quando as primeiras caricaturas de Maomé foram publicadas, os autores do atentado desta quarta teriam gritado "Vingamos o Profeta!", em referência à charge que irritou os extremistas.
A reportagem do Portal Caçador Online entrevistou, por e-mail, o caçadorense Gerson Witte, ilustrador, cartunista e professor de Artes Visuais do IF-SC, em Chapecó. Ele lamentou a morte dos profissionais conhecidos no mundo todo. “O que aconteceu na França é o equivalente a entrar no Pasquim e fuzilar o Millôr e o Ziraldo”, comparou.
Gerson Witte também lamentou a intolerância de extremistas que não respeitam a liberdade de expressão.
“Em minha opinião (algo perigoso nos dias atuais), vale cada vez mais a frase atribuída a Voltaire: "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”.”
Confira a entrevista
Você conhecia o trabalho da revista Charlie Hebdo e dos profissionais?
“Da revista propriamente não, mas o trabalho do cartunista Wolinski eu era fã. Mas acompanhando a repercussão do atentado terrorista, pude ver que a publicação tinha o objetivo de satirizar o discurso oficial, ridicularizar a sociedade e sua "modas" e tentar ofender as pessoas que merecem ser ofendidas. Assim, o que fizeram na França foi o equivalente a entrar no Pasquim e fuzilar o Millôr e o Ziraldo”.
Como você vê as publicações da revista sob os temas mais polêmicos?
Eram atitudes corajosas de enfrentar quem tenta subjugar a sociedade pela força. A revista não fazia discriminação porque tentava fazer humor com todas as pessoas, satirizando diversos grupos. Vi muitas charges religiosas, principalmente falando de instituições cristãs como a Igreja Católica, o Papa e mesmo a figura de Jesus, sem que houvesse maiores repercussões. Só que falaram do islamismo e de Maomé, então aí se tornaram ofensivos. Por que a diferença? Por isso acho que nada justifica o massacre, porque nenhuma crença deve ser sagrada a ponto de permitir tirar a vida de outro ser humano em seu nome.
Por que algumas pessoas ou grupos ainda não entendem a liberdade de expressão?
A Europa sofreu muito com perseguições religiosas que resultaram em muitas guerras, mas finalmente chegaram a um consenso que as pessoas têm ideias, conceitos e visões discordantes, sendo necessário um esforço para aceitar o diferente, tolerando principalmente o que não concordam.
Só que os fanáticos acreditam que encontraram a verdade absoluta e que vale a pena morrer por suas ideias, ou pior, matar, sempre em busca de um mundo ideal. Assim, os terroristas sempre acreditam estar fazendo o certo e calar as vozes que discordam, mas a história mostrou que esta atitude só trouxe miséria, atraso e tiranismo.
Qual o tamanho da perda para a profissão de cartunista?
Acho que perde mesmo é o jornalismo como um todo. No momento em que não se pode mais dizer o que se pensa, sendo necessário um revisor dizendo o que pode ou não ser publicado porque pode ofender alguém ou a algum grupo, estaremos implantando uma censura muito pior ao da Ditadura Militar. No caso da revista francesa, o que os terroristas mais temem é serem satirizados, de se tornarem piadas na boca do povo, por só saberem agir pela força, pelo terror, pelo medo que despertam.
E o humor liberta, porque igual à fábula, os cartunistas são os gritam que o "Rei está nu", mostrando o ridículo não só o tirano quanto aqueles que o apoiam.
Em minha opinião (algo perigoso nos dias atuais), vale cada vez mais a frase atribuída a Voltaire: "Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo".






