3 de outubro de 2026
Crônica

Caçador Urbano Desumano, por Alisson Agusti

Por Alisson Agusti

Hoje pela manhã, enquanto tomava meu café, percebi um barulho de motosserra que parecia vir de dentro da casa do vizinho. “Doce” ilusão a minha. A motosserra com toda sua força, barulho e fumaceiro de seu motor dois tempos, empunhada por um distinto senhor, derrubando uma árvore! Quando cheguei o serviço estava quase pronto, e logo a árvore caiu! Fiquei pensando em nossa querida cidade, e como ela está se encaminhando. Cada vez mais urbana e mais fria, de aconchego, tão mais fervente, nos dias escaldantes de verão. Nenhuma árvore à vista pelas ruas.

Se isso não bastasse, caminhar pelas vias urbanas de nosso municípioé um desafio e tanto! Ruas centrais de nossa cidade, não possuem se quer calçada, ou passeio público como alguns gostam de falar! No centro da cidade! É realmente uma barbaridade e um desafio andar por aqui! No centro é assim que fará nos bairros longínquos e carentes de estrutura. Parece que tudo importa na cidade, menos o bem estar das pessoas. Você que sempre anda de carro, experimente um dia andar a pé, meia hora será suficiente, podes escolher o centro mesmo, e veja o quão é difícil você andar dignamente, principalmente nos dias de verão.

Não há uma árvore se quer, nas ruas centrais, quando há calçadas estão todas defeituosas, e por muitas vezes, há construções onde montes de areia, entulhos ou pedras, impedem a passagem das pessoas e estas por sua vez, tem que se lançar ao desafio de andar pelo meio da rua! Outro dia uma construção na parte baixa da avenida, bloqueava o passeio público e sequer houve o isolamento de uma área no estacionamento para passagem dos pedestres. O mesmo aconteceu na Anita Garibaldi quando uma casa passava por reformas, ou próximos aos trilhos, bem no centro, quando da construção de um novo prédio comercial! Muitos outros casos ainda piores acontecem, como aquele que há atualmente lá na parte alta da avenida, onde ontem mesmo tive que lançar-me à sorte entre os carros da rua, pois a calçada está em
obras! Vejam na Nereu Ramos, a rua do Paulo Schieffler. Não há uma árvore sequer naquela rua, apenas tocos daquelas que algum dia, muito tempo atrás, serviram de sombra e vida para aquele local. Nessa mesma rua, em trecho de menos de trezentos metros, há pelo menos, duas calçadas intransitáveis! As pessoas precisam andar pelo estacionamento, pois o passeio mais parece uma trilha de moutain bike.

Tantas outras ruas e tantos outros locais... Terrenos baldios sem local para as pessoas transitarem, riscos de vida e de acidentes. A rua Domingos Sorgatto, a rua de saída para o trevo de Rio das Antas, uma via de transito intenso. Lá as pessoas andam pelo meio do asfalto, e pelo estacionamento, por que não há passeio público, só o que existe é aquele matagal de todos aqueles terrenos abandonados! Algumas poucas árvores na calçada do cemitério, calçada esta em estado lastimável, e um desafio para quem se atreve a caminhar por ela, com risco eminente de acidente, como há alguns dias, quando uma senhora tropeçou numa “saliência da calçada” pra não dizer uma deformidade, acabou caindo e se machucando. Há muito abandonada essa rua, as pessoas lançam-se ao desafio de caminhar por lá. Em dias de chuva as poças d’água obrigam-nas a caminhar pelo meio da rua, sorteando espaços entre os caminhões, ônibus e veículos das empresas que todos os dias por ali passam. De vez em quando, uma “roçadinha” no mato que quase está sobre a via. É assim, este é o nosso Caçador. Tenho certeza que você que lê este, tem muito mais exemplos, e até piores do que estes citados aqui.

Numa temporada que passei no Canadá, observei bem alguns detalhes. Vancouver, a cidade onde fiquei, estava em plenas obras, por conta dos jogos olímpicos de inverno que aconteceram no início deste ano. A cidade era um imenso canteiro de obras, e lá quando se faz algo que vai ocupar o espaço do passeio público, a via é isolada no todo ou em parte, para deixar um espaço livre e seguro para as pessoas transitarem. A preocupação com a segurança e bem estar das pessoas é incrível. Faixas, telas, balizas chumbadas no chão, cones, operários todos equipados sinalizando o trânsito. E aqui? Você vê operários da prefeitura em cima de caminhões, sem segurança nenhuma molhando os canteiros das praças! Imagine o restante...

Lá não se corta nenhuma árvore da cidade, só se ela estiver caindo. Lá você caminha por um “bosque urbano” e aqui as pessoas dão graças ao se cortar “uma arvorezinha de nada”. Lá as arvores são bem cuidadas e têm espaço entre as calçadas, casas e fios dos postes. Aqui, no entanto, quanto menos árvores tiverem melhor. Quanto menos medidas de segurança tiverem, tanto mais barato e tanto melhor será. Tudo isso se resume em falta de vontade disciplina e fiscalização.

E este texto de indignação, é para que prestemos mais atenção na vida das pessoas e não na vida dos motoristas, construtores, ou qualquer outra categoria. Qualidade de vida é para as pessoas. Para que possam ir e vir confortavelmente e com segurança pelas ruas da cidade onde moram, seja no centro ou no bairro, seja no inverno ou no calor escaldante sob a sombra de belas árvores. No entanto, Caçador está se transformando num deserto de cimento e asfalto, onde não há lugar para as pessoas, só para motoristas! Que fará para as árvores, isso é mal e mau também

Dizia o grande cientista Carl Sagan, que a vegetação proporciona a vida no planeta, graças a ela, graças às árvores podemos aqui viver. Devemos adaptar nosso ambiente a elas. Tão bom um local arborizado, gostoso, sombra fresca. Às árvores trazem vida, abafam o ruído, limpam o ar, trazem sombra, pássaros e qualidade de vida. Ah, e se elas estragam a calçada, adaptemos as calçadas a elas, portanto. Usemos de nossa tão aclamada inteligência para resolver esse problema. Mas o problema mesmo é que em Caçador faltam os dois: as árvores e os passeios públicos.

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