3 de outubro de 2026
Obituário

Ao Dr. Antão Timm, por Frutuoso Oliveira

Por Frutuoso Oliveira, jornalista (Florianópolis)

Caçador perdeu na noite de sexta-feira um de seus filhos adotivos mais ilustres. O médico Antão Albano Timm era uma dessas raras figuras que consegue ser unanimidade numa comunidade. É algo difícil, quase impossível. Mas o Dr. Antão, como era carinhosamente chamado, conseguiu esse feito. E numa profissão difícil, espinhosa e muito sujeita a erros como é a medicina.
 
Dr.Antão era diferente da média geral dos cidadãos. Fez da medicina a sua vida. Abnegado, nunca se apegou a bens materiais. Era dedicado aos amigos, dono de uma simplicidade que escondia sua condição de médico e homem culto. Fosse num dominó no bar do Jorge ou numa conversa no acampamento da fazenda do Manuel Pedro (e ultimamente nas barrancas do rio Timbó) ou exercendo a medicina para a qual viveu, era sempre o mesmo.
 
Logo que se formou em medicina, Dr. Antão teve a oportunidade de seguir carreira em grandes centros ou ainda ocupar cargos públicos no Governo. Seu primo, Magnos Coelho de Souza, por exemplo,  companheiro de turma, tornou-se um dos maiores cirurgiões cardíacos do Brasil, dirigindo esse setor no Hospital Beneficência Portuguesa, de São Paulo. Mas Dr. Antão preferiu ficar em Caçador, aqui faltavam médicos na época, e ele dedicou-se a comunidade.
 
A fama de caridoso, fez até que muitas pessoas de posse o chamassem para um atendimento em  casa e nunca pagassem nada pelo serviço. Dr. Antão achava deselegante cobrar pelo serviço e muitos dos pacientes se aproveitavam disso esquecendo a conta. Hoje, os médicos em pouco tempo de serviço já estão ricos (e cobrar pelo trabalho não é nenhum pecado), mas Dr. Antão preferiu ser diferente. Viveu como quis, com o dinheiro suficiente para o que precisava e na companhia das pessoas que gostava.
 
No céu ou qualquer outro lugar para onde vão as boas almas depois da morte deve haver local para um bom acampamento as margens de um rio. Lá certamente ele encontrará com seus amigos que já partiram antes dele para uma boa prosa e uma boa pescaria. Há tempo doente, Dr. Não acompanhava mais o Campeonato Brasileiro, mas de lá onde estiver, não vai escapar de uma flauta, pela inevitável queda do seu Fluminense.
 
Há alguns anos a Câmara Municipal entregou ao Dr. Antão o Título de Cidadão Honorário de Caçador. Uma grande festa no clube 7 de Setembro. Na hora do discurso, surpresa: Dr. Antão abdicou da palavra, o tradicional discursos que os homenageados proferem. Seu irmão, Ubirajara (nosso ministro) fez o pronunciamento e encerrou com esses versos do poeta espanhol Calderón de La Barca: “Há homens que mesmo vivos são como se mortos estivessem, entretanto há outros que pelo seu valor mesmo depois de mortos continuam vivos”.
 
Os versos do poeta espanhol, ditos por Ubirajara naquela noite dizem tudo: a memória do Dr.Antão estará sempre viva na memória dos caçadorenses que o conheceram. 

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