Quem vê o rosto sorridente da professora Rosimari Ferreira da Silva, 33 anos, sentada sobre um troco de árvore que caiu na frente da sua casa pode não imaginar o drama que ela vem passando nos últimos dias. Desde sábado ela é uma dos milhares de desabrigados do município de Blumenau.

Moradora do bairro Pedro Kraus, na periferia da cidade, a mãe de três filhos deixou o Piauí há quatro anos para morar em Blumenau. “Estava passando um momento ruim no casamento e resolvi mudar para Santa Catarina para recomeçar a minha vida. Agora perdi tudo, mas vou recomeçar novamente”, afirma esperançosa.
Mesmo estando há quatro anos em Blumenau, somente há três meses ela comprou a sua casa. Pagou R$ 15 mil de entrada e assumiu prestações para os próximos sete anos. “Se ela me devolvesse o dinheiro, até poderia voltar para o Piauí, mas como isso não vai acontecer vou continuar por aqui”, salienta.
Sua casa, construída de tijolos, no pé de um morro teve uma parede destruída e foi completamente tomada pela lama. Ela mandou as crianças para a casa de uma amiga e estava dormindo na creche do bairro. Na tarde de sexta-feira, técnicos da Defesa Civil a convenceram a mudar de abrigo porque a creche estava numa área de risco.
Além de enfrentar a fúria das águas, quando saiu as pressas de casa para preservar a sua vida e a dos filhos, Rosimeri deixou para trás seus móveis. Acabou tendo um forno microondas e um computador roubado. “Não sei mais o que pode me acontecer de ruim”, lamenta, sem esconder seu sorriso de esperança.
Seu Celso vai voltar para Chapecó
“Não moro mais nesse lugar”. Assim o aposentado Celso Pedro Novelo, 63 anos, anunciava na tarde de sexta-feira aos técnicos da Defesa Civil que estava arrumando a mudança para mudar para Chapecó, de onde saiu há nove anos. “Vou morar com a minha filha, adeus Blumenau”, completou.

Celso conta que gostou muito de Blumenau, conheceu pessoas boas, mas não dá mais para continuar morando no bairro Pedro Kraus depois da tragédia. Sua casa rachou e está prestes a cair. “Amanhã mesmo chega um caminhão para levar a minha mudança”, contou.
Vila Pedro Kraus foi arrasada
Na tarde de sexta-feira os servidores da Fundação do Meio Ambiente (Fatma) que auxiliam os atingidos pela tragédia em Santa Catarina foram designados pela Defesa Civil para acompanhar os técnicos que vistoriavam áreas de risco. Fiz parte da equipe que foi para a Vila Pedro Kraus.
O local foi arrasado. Árvores caídas, casas que desabaram em parte ou no todo. Ruas cheias de lama e muita tristeza. Moradores chorando, resistindo para sair de suas casas até o último momento. “Aqui não pode ficar mais ninguém. Esses morros estão prestes a cair”, afirma o técnico Fernando, da Defesa Civil.
Na tarde de sexta-feira, alguns moradores ainda retiravam seus pertences. A maioria está em abrigos ou casas de parentes. “Eu só volto para cá se a Defesa Civil disser que não existe mais nenhum perigo”, afirmou a dona de casa Vanir Terezinha Klaumann. A sua casa não foi destruída, mas todo o seu terreno desbarrancou, ficando sem acesso.
Solidariedade é marca da tragédia
Em Blumenau, o som que mais se ouve é barulho de helicópteros e som de sirenes de bombeiros. O pavilhão da Proeb, onde brasileiros brincam a oktoberfest, é o cenário da solidariedade. Lá é o ponto de recebimento e entrega de alimentos. A todo momento chegam carretas e caminhões de alimentos e água.

Jornalistas do Brasil e do mundo cobrem a tragédia provocada pelas chuvas. Na foto, Ana Maria Braga apresenta programa ao vivo de Blumenau.
Ao mesmo tempo, caminhonetes tracionadas nas quatro rodas, como as oito que a Fatma disponibilizou, jipes e caminhões do Exército saem a todo momento com cestas básicas e água para os locais de mais difícil acesso.
No pavilhão, homens, mulheres, jovens e crianças trabalham na separação dos alimentos, montagens das cestas básicas, classificação das roupas e liberação dos produtos. Não faltam voluntários. O maior problema ainda é a logística para que essas doações cheguem ao destino.





