Eleito com aproximadamente 14.600 votos, Saulo Sperotto (PSDB) completa no final deste ano metade do seu mandato como prefeito municipal de Caçador. Para fazer uma avaliação de sua gestão até agora e uma previsão para os próximos dois anos, Sperotto recebeu a reportagem do Portal Caçador Online em seu gabinete para uma entrevista.

Saulo Sperotto
Com a costumeira fala rápida, o prefeito comentou sobre o seu ingresso na vida pública depois de ter estabelecido carreira como empresário. Falou da dificuldade de num primeiro momento “organizar a casa” e afirmou que a partir de agora está tudo encaminhado para “executar mais obras”.
Durante a entrevista, Sperotto também falou de saúde, pavimentação, trânsito, CPI, Feinacc, Plano Diretor, oposição da Câmara Municipal e da dificuldade financeira que, segundo ele, atinge a maioria dos municípios. Colocou como seu maior desafio promover a qualidade de vida nos bairros.
Questionado sobre suas pretensões para o futuro Sperotto deixou “no ar” que deve ser candidato à reeleição em 2008. “Quem está na chuva é pra se molhar, quero dar continuidade ao que eu venho desenvolvendo”.

Saulo com o vice-prefeito Lucir Telmo Christi
Confira a entrevista na íntegra
C.O: Como foi seu ingresso na vida política?
S.S: Eu estou no PSDB desde 1995 sendo que foi o primeiro partido que ingressei através de convite de amigos. Acho que chega uma hora na vida que você percebe que pode dar uma contribuição a mais, tentar melhorar a vida dos caçadorenses, e foi esse o motivo do meu ingresso na vida pública. Em 2000 eu ia ser candidato a vereador, mas devido a um acidente automobilístico acabei desistindo. Em 2002 fui candidato a deputado federal, não me elegi, mas fiz mais de 25 mil votos, sendo 50% dos votos válidos de Caçador, e isso nos deu oportunidade naquele momento de criar espaço e gerar um novo nome no município. Então conversamos com alguns partidos e optamos por uma coligação nova a partir da qual fomos eleitos.
C.O: Qual a avaliação que você faz desses quase dois anos da sua administração em Caçador?
S.S: Em primeiro lugar está sendo um aprendizado muito grande porque eu venho do setor privado para o setor público. Tive que quebrar alguns paradigmas e superar obstáculos. O funcionalismo público é muito bom de trabalhar, é eficiente, só que às vezes é muito desvalorizado. E às vezes meia dúzia de indivíduos denigre uma classe inteira. Então nesse período nós começamos a conhecer a estrutura, não porque não sabíamos como administrar uma empresa ou município que é praticamente a mesma coisa, mas sim porque tivemos que fazer aqui uma grande revolução dentro da Prefeitura. O primeiro passo foi integrar o sistema de informática que antes era dividido em cinco dificultava totalmente os trabalhos, e isso demorou. Tivemos que investir em novos equipamentos, tecnologias, para hoje nós termos noção de onde está saindo o recurso, para onde está sendo gasto e quanto está sendo gasto. Estamos interligados com a receita federal, estadual e municipal para controlar os impostos, a saúde também está toda informatizada. Então foi um início de arrumação e agora as coisas vão funcionar cada vez melhor.
C.O: Qual sua visão sobre Caçador atualmente?
S.S: É uma pena que os administradores anteriores não fizeram um plano diretor adequado.
Caçador é uma cidade que em termos de planejamento cresceu totalmente desordenada. Veja bem. Em dois anos nós tivemos que fazer 11 regulamentações de áreas invadidas, temos loteamentos de 20 anos que ainda não são regularizados. Então o que precisa é planejamento e com o Plano Diretor que nós desenvolvemos agora e deve ser aprovado pela Câmara, este planejamento está sendo feito. Nós sabemos onde o município vai crescer agora, nós sabemos onde temos que investir. Se o município tem melhores condições de crescer para um lado é ali que nós vamos trabalhar.
C.O: Qual é seu maior projeto para os próximos dois anos?
S.S: O maior desafio é promover qualidade de vida nos bairros, ou seja, que os bairros possuam um posto de saúde próximo, um local adequado de lazer, sua iluminação, seu asfalto. Então encima desse propósito nós temos grandes projetos e temos trabalhado para buscar os recursos. Um deles é a remodelação da saúde. Estamos investindo também na capacitação dos professores, aumento de salário, informática, esportes, temos um projeto de ampliação da escola Maria Luiza Barbosa no qual faremos uma extensão da escola para as crianças realizarem atividades extracurriculares, o bairro Yung vai passar por uma grande reestruturação a partir do ano que vem. Então esses dois anos foram de organização da casa e planejamento de prioridades. E os próximos anos serão de execução de obras. Não adianta Caçador ser a 14ª economia de Santa Catarina, a 5ª exportadora, se temos índices sociais que nos envergonham. Mas isso não é da noite pro dia. Caçador vai ter uma surpresa muito boa em todos os sentidos, infra-estrutura, saúde, educação, logística, mas não vou ficar falando muito e sim colocar em prática.
C.O: Como você vê a atuação da Câmara de Vereadores em Caçador?
S.S: A Câmara de Vereadores tem dois aspectos interessantes. Primeiro dentro da normalidade é um poder independente que age para fazer leis e fiscalizar o Executivo. Segundo é a questão política que às vezes prevalece ao interesse do cidadão ou do município. E isso nós temos que tentar evitar porque o maior prejudicado é o cidadão. Eu não tenho receio, pois a maioria dos projetos que eu encaminhei foram aprovados, mas um ou outro vereador sempre especula demais sobre alguns objetos, sem consultar. Talvez falte um pouco de diálogo entre Legislativo e Executivo, e isso eu assumo que temos que ter mais diálogo independente de maioria ou minoria política. É bom administrar com adversários na maioria, mas que eles sejam bastante técnicos na fiscalização.
C.O: Como está Caçador financeiramente?
S.S: Todos os municípios, incluindo Caçador estão passando por dificuldades muito grandes. Nós recebemos todos os dias serviços novos, mas não recebemos recursos para isto. O Governo que nós temos hoje criou vários encargos que não beneficiam os municípios. Então o Governo é altamente arrecadador e matou os municípios. Mas o que não se dão conta é que o serviço é executado no município. Hoje o Governo Federal arrecada 65% do que se produz no município, o Estado com 22% e o município apenas com 13%. Então nós poderíamos estar hoje arrecadando quase o dobro que nós recebemos do Governo para então executar os serviços e melhorar a qualidade de vida da população.
C.O: Tendo em vista que este é uma realidade difícil de ser mudada, quais seriam as soluções?
S.S: Nós estamos trabalhando bastante, interagindo com os deputados federais, senadores, governadores, porque tem que existir um pacto federativo. Vai findar as prefeituras se continuar assim não resiste mais à falta de recursos. Então estamos nos mobilizando para que haja uma inversão desses recursos para que o município seja o detentor. Órgãos para fiscalizar não faltam, tem a Câmara Municipal, Ministério Público, Ministério do Trabalho, Promotoria Pública, entre outros. Nos países desenvolvidos o maior arrecadador é o município.
C.O: A sua administração passou por três CPIs até agora, é um problema de gestão?
S.S: Muitas das irregularidades apontadas pelas CPIs, como desvios de funções, pagamento de horas extras, falta de alguma licitação, nós até podemos ter errado. O que nós fizemos foi contratar uma auditoria pública e o que se descobriu foi que muitas irregularidades, até mais sérias, vem de outras administrações. E nós encaminhamos todo esse relatório, de 2002, 2003, 2004 para o Ministério Púbico sem alarde. A justiça que vai fazer o que deve ser feito. Na minha administração, tudo o que for encontrado de irregularidade administrativa ou pessoas utilizando o bem público para benefício pessoal, os responsáveis vão ser punidos independente se é concursado ou não, independente de partido político.
C.O: Comenta-se que a Saúde tem sido o ponto fraco da sua administração, como você avalia isso?
S.S: A Saúde é muito complexa. Nós estamos assumindo diversas responsabilidades que não são nossas, por exemplo, a urgência e emergência do Hospital Maicé que não é de nossa responsabilidade. Mas mesmo assim nós repassamos um valor, colocamos médicos lá e o Hospital fatura encima disso. Então o que nós queremos é cuidar da nossa responsabilidade que é o atendimento básico, como por exemplo o atendimento ambulatorial no Hospital Jonas Ramos que nós iremos abrir. A Saúde no ano passado gastou R$ 3 milhões a mais dos 15% exigidos em lei, e este ano já investimos mais de 24% e não tem resultado. Então o que nós vamos fazer é uma inversão total na saúde a partir de agora. Nós queremos ter PSF, médicos nos postos de saúde por 8h e nós já estamos contratando, queremos ter o pronto socorro ambulatorial para atendimentos básicos. Se a pessoa fica bastante doente daí tem que ser encaminhada para o Maicé e o tratamento é responsabilidade do Estado.
C.O: Quais são suas pretensões para o futuro?
S.S: Em minha opinião, o prefeito deveria ter no mínimo 5 e no máximo 6 anos de mandato sem direito a reeleição porque o primeiro ano é praticamente perdido, é um período de ajustes e organização da casa. Eu tenho interesse em continuar, com certeza, quem está na chuva é pra se molhar. A política é um ato de conviver, conquistar e mostrar o que você quer fazer. Então eu pretendo dar continuidade ao que eu venho desenvolvendo.
C.O: E a Feinacc?
S.S: A Feira Industrial Agropecuária e Comercial de Caçador tem como objetivo mostrar o potencial econômico do município que é um pólo regional. Tenho certeza que essa Feira vai emplacar não só a nível regional como estadual porque Caçador é uma cidade industrializada e de comércio bastante forte. Então é um incentivo para que as empresas mostrem seus produtos e façam negócios. Os shows musicais são de primeira linha e isso vai atrair o grande público, além de toda a reestruturação que o Parque das Araucárias está passando.
C.O: A pavimentação tem sido uma das prioridades da sua administração, mas algumas ruas estão com a camada asfáltica descascando, não seria apenas uma solução a curto prazo?
S.S: Nós estamos trabalhando de duas maneiras nessa questão da pavimentação. Algumas ruas estão recebendo asfalto com todo o processo, com base, sub-base, camada de 8 centímetros, etc. Em outras nós estamos apenas recapando para melhorar a trafegabilidade. O que acontece é que em algumas ruas como a Beira Rio, por exemplo, o trânsito é tão intenso que não há asfalto que resista. O que nós temos feito que é de extrema importância nesse sentido, é criar rotas alternativas para desviar os caminhões do Centro do município, como a Perimetral e outras alternativas que estamos estudando. Mas nós estamos procurando recursos para fazer novos asfaltos e a manutenção desses já existentes. O Bairro dos Municípios, por exemplo, está com os paralelepípedos todos irregulares e nós vamos fazer o reperfilamento em algumas ruas. O asfalto da maioria do Centro da cidade tem que ser refeito porque é um asfalto antigo e grosso, com o tempo se torna permeável infiltra água e abre buracos.
C.O: E como vai ficar o trânsito?
S.S: Um dos tripés do Plano Diretor é o sistema de transporte viário e o transporte coletivo. Nós temos mais de 25 mil veículos em Caçador e o sistema vai mudar porque está errado. Nós vamos fazer o Terminal Integrado, no qual vai ter ônibus saindo dos bairros pro Centro e do Centro pro bairros e o passageiro vai pagar apenas uma passagem independente de onde ele queira ir.
Estamos fazendo as medições e estudos de todas as saídas de Caçador e o que for melhor pro município no trânsito nós vamos fazer, e se for comprovada a necessidade vamos fazer umas mudanças bem radicais. Então a mudança é bastante complexa prevê pavimentação, iluminação, urbanização e tudo mais. Só temos que ter cautela pra ver se teremos dinheiro para isso. Tem ruas importantes no Centro como a Ônio Pedrassani, que ainda não conseguimos verba para asfaltar. O trânsito da Vila Paraíso vai mudar, do Santelmo vai mudar, mas com calma, tudo precisa ser projetado e orçado. Tem a questão dos pardais que nós vamos transformar em lombadas eletrônicas. Esses radares vão se transformar em OCRs, que são vigilâncias 24 horas que serão colocadas nas saídas e entradas da cidade. Com isso todo veículo que entra e sai em Caçador será fotografado e identificado no cadastro da Polícia Civil, Militar e Guarda Municipal. Então é essa a idéia, de cuidar de planejar o desenvolvimento do nosso município.
C.O: Recentemente foi aprovado na Câmara um projeto de lei encaminhado pela Prefeitura que altera algumas dotações orçamentárias e que causou uma certa polêmica. Qual foi o motivo dessas alterações?
S.S: Mudanças no orçamento sempre existiu na Prefeitura de Caçador. Se você pegar historicamente isso acontecia naturalmente, às vezes até mesmo em maio, se anulava dotações orçamentárias e criavam-se outras. A partir de agora meu compromisso vai ser com a folha de pagamento dos funcionários e com as despesas das secretarias que vai ser sagrado, o que sobrar vai ser investido em obras. Não podemos criar uma expectativa num orçamento fictício, e sim fazer um orçamento real.
C.O: Mas a principal polêmica era em relação à falta de clareza no destino de parte das verbas. Um valor será direcionado para o pagamento de funcionários, mas outros recursos foram anulados e não foram redirecionados.
S.S: Nós temos alguns problemas orçamentários hoje, vai faltar recursos em algumas secretarias em setembro, outubro vai faltar. Então já anulamos alguns valores para suprir nestas necessidades. Por exemplo, Ponte da Nossa Senhora Salete, R$ 200 mil, não dá pra fazer nem a base com esse valor. Tem inúmeros gastos como as desapropriações, os acessos, e isso eleva e muito o gasto. Outro exemplo, Centro da terceira idade, R$ 100 mil, não faz. Então essas anulações na verdade tem verbas individuais de deputados e senadores empenhadas, mas eu só vou falar quando o dinheiro estiver na conta. E a previsão é apenas para o início do ano que vem porque ano eleitoral é complicado.





