3 de outubro de 2026
Crônicas

31/08/2011

Por Márcio Roberto Goes

Reposição com qualidade

Estou aqui. Trabalhando... Labutando... Lecionando... Repondo... Aqui estou, num lugar aconchegante, bem estruturado, destinado também a atender alunos de escolas públicas... Berço do programa Vida Feliz! Mas esta não é a escola onde trabalho... Enquanto aqui estou, penso em alguns aspectos da educação pública estadual que meu cérebro criativo e irrequieto não consegue entender:

Já vi greve na área da saúde. Depois do término, não necessariamente diante das reivindicações atendidas plenamente, não vi ninguém repondo horas de trabalho. Nenhum posto de saúde foi aberto sábados e domingos por algum tempo, para recuperar os dias de paralisação. Tampouco vi, até hoje, nenhuma autoridade “incompetente” exigindo um calendário de reposição até certa data estipulada pelos engravatados para os profissionais da saúde que fizeram greve...

Quando houve a greve dos bancários, não vi nenhum noticiário dizendo que os profissionais desta área deveriam repor o que foi “perdido”. Nenhum banco foi aberto final de semana, ou feriado para recuperar o tempo da paralisação. Também, não percebi, em nenhuma autoridade, a mínima preocupação, por mais falsa que fosse, de se redimir dos clientes prejudicados durante os dias parados.

Na educação pública estadual de Santa Catarina, porém, é obrigatório se fazer um calendário de reposição das aulas... E deve ser reposição com qualidade, a mesma rejeitada outrora pelo descaso dos excelentíssimos que se recusaram a pagar o piso salarial da categoria, aprovado a nível nacional há mais de dois anos.

Durante esta semana, o Wandão, bem como as outras duas escolas onde trabalho: João Santo Damo e Colégio Cenecista Marcos Olsen, tornaram-se alojamento para os atletas dos joguinhos abertos, o que para nós é um prazer, pois estamos colaborando com um evento que traz muitos benefícios para Caçador... Até aí tudo bem, tudo normal e na santa paz. O problema é que, ao contrário dos bancários e dos profissionais da saúde, a “repressão colombar” nos obriga, no caso os professores da escola Wanda Krieger Gomes, a repor aulas durante a semana dos jogos... Mas, o Wandão está ocupado pelos atletas! O que fazer?... A solução é abusar com a paciência e a inteligência dos professores, obrigando-os a trabalhar em outro espaço. Se não for assim,  a repressão não tem razão de ser. Nos foram gentilmente oferecidas cinco salas de uma escola municipal no mesmo bairro, porém no lado oposto ao da nossa escola, o que obrigaria nossos alunos a fazerem uso do transporte escolar, inexistente por estas bandas...

A segunda opção foi usar três salas cedidas pelo CESMAR (Centro de Educação Social Marista). Não tivemos direito de opinar... Aliás, opinamos, mas não fomos ouvidos e, apesar de apresentarmos um novo calendário de reposição, sacrificando sábados e feriados, inclusive o dia sete de setembro (graças a Deus não será preciso bater o pé na avenida), a ideia não foi aceita pelos “colombares” regionais... Portanto, estou aqui...

Aqui estou... Aqui me sinto bem, afinal fui timoneiro do REMAR (Renovação Marista) na década de noventa. Estive amplamente envolvido com a juventude Marista. Continuo sendo, portanto, Marista de coração, fã de São Marcelino Champagnat e ainda alimento uma utopia de educação como sonhava o fundador desta congregação...

Aqui estou. Vida feliz!... Tenho muitos amigos neste local, me identifico com o carisma e a didática deles. Aqui, sinto o Marista adormecido em mim despertando para os novos tempos, com lutas e ideais antigos, porém sempre atuais... Gosto de aqui estar, mas preferia fazê-lo em outra circunstância, não para cumprir um calendário que foi dilacerado por culpa de um governo que só valoriza uma educação de vitrine, cheia de construções magníficas e vazias. Prática que resultou numa greve: última tacada de quem não é considerado profissional digno pelas autoridades... Agora tentam jogar a culpa da situação criada por eles nos professores grevistas... Inversão de valores explícita. Mais um esplendor do capitalismo selvagem que faz da vítima a culpada pela situação que a vitimou...

Márcio Roberto Goes
www.marciiogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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