Rindo à toa
“Oi Lidiane, primeiramente queria parabenizá-la pelo seu trabalho. Você é muito feliz no que faz e no que escreve. Amiga, acho que posso te chamar assim, apesar de não conhecê-la pessoalmente. Sabe, quando leio seus artigos parece que estou batendo um papo descontraído com você. É estranho, mas é assim que me sinto. Mas, vamos ao que interessa. Lidiane, vou fazer 66 anos e quero dividir a minha história com seus leitores. Estou separada há mais de 10 anos e na época em que eu era jovem, o conceito de sexo era de que o homem deveria se satisfazer sexualmente e a mulher deveria estar pronta para ter relação sexual na hora em que ele quisesse. Conheço muitas amigas que nunca chegaram a atingir o orgasmo, que o sexo feito com o ex-parceiro sempre foi ruim e hoje dão graças a Deus por estarem sozinhas. Você deve estar se perguntando aonde quero chegar com essa conversa. Lidi, como muitas mulheres da minha geração, casei muito jovem e minha única experiência sexual, durante muitos anos, tinha sido apenas com meu, hoje, ex-marido. Fui criada para casar, cuidar da casa, dos filhos, tornar a vida do meu marido mais fácil e 'servi-lo' sempre que quisesse. Era meu ex-marido quem administrava tudo, principalmente o dinheiro. Ele era um tremendo mulherengo. Sofri boa parte da minha vida com suas traições até o dia que tomou a decisão de tirar a viseira e aceitar a minha realidade. Como você sempre diz Lidiane “o pior cego é aquele que não que enxergar” e outra “o que os olhos não vêem o coração não sente”. Você falou outro dia num dos seus artigos. “Todo mundo pode falar, nós podemos até ficar sabendo das puladas de cerca de nossos parceiros, mas, enquanto não vermos com nossos próprios olhos, nos enganamos, não querendo acreditar que o fato seja realmente verdade.” E comigo não foi diferente. Precisei ver, com meus próprios olhos, meu ex-marido abrindo a porta da casa de sua amante, para por um ponto final no nosso casamento. Naquele dia decidi que não aceitaria mais aquela vida. No começo foi muiiiiiiiito difícil. Acho que cheguei no fundo do poço. Mas, tive que ser firme, afinal, tinha que aprender a andar com minhas próprias pernas. Comecei do zero. Eu não tinha uma renda. Mas a vida foi tão generosa comigo que logo consegui me aposentar, acabei recebendo dividendos da empresa da minha família e, felizmente, tenho patrimônio. Dessa forma fui conduzindo as minhas finanças. Me considero uma vitoriosa porque estudei apenas até a quarta série, passei quase uma vida inteira dependendo do meu ex-marido e hoje conquistei minha estabilidade financeira, não preciso de ninguém para me sustentar, quero apenas um homem para amar e ser amada. Lidiane, agora vou contar a melhor parte da minha história. Depois que passou a fase negra 'acordei para a vida'. Sou uma mulher bem descontraída, de fácil amizade e de sorriso largo. O que facilita muito o contato com as pessoas. Novas amizades surgiram, comecei a participar dos bailinhos da melhor idade, fazer caminhadas com as amigas, tomar chimarrão com as vizinhas, jogar conversa fora e freqüentar as aulas da UAMI, na Uniarp. Nos últimos anos, até o meio-dia, cuido da casa e preparo o almoço para meus filhos, mas à tarde dificilmente alguém me pega em casa, sempre acho algo para fazer. Minhas filhas dizem que sou até mais dispostas que elas. Srsrssr. Nos eventos que freqüento sempre atraio os olhares masculinos. Não fico uma música sem dançar. Por sinal, adoro dançar. Quando não estou dançando, estou batendo papo com os velhos e novos amigos. Pretendente é o que não falta. Já tive inúmeras oportunidades de encontrar um namorado, mas, quero alguém que tenha, pelo menos, o mesmo padrão de vida que o meu, caso contrário, continuo curtindo a vida solteira, mas, não sozinha. Tem muito homem por aí querendo se encostar ou apenas sexo, mas, sou macaca velha, não caio na conversa tão fácil. Mas Lidiane, o ponto que quero chegar é esse aqui. HOJE estou RINDO À TOA. Encontrei o homem que procurava, estamos namorando e temos uma vida sexual saudável, como quando tínhamos corpos jovens. Até pouco tempo atrás era inadmissível perante a sociedade que uma pessoa com mais de 50 anos namorasse. Por isso quero dizer que devemos sim, namorar. Quero dizer que é possível sim, encontrar um novo amor na MELHOR IDADE, e melhor, você não sabe como é bom e faz bem para a saúde estar FELIZ, amar e ser amado. Gente, manter uma vida sexual ativa faz muito bem ao corpo, alivia tensões e, principalmente, mantém a auto-estima da gente em dia. Entregar-se ao amor, seja em qualquer idade, independente da raça ou classe social, traz um colorido a mais na vida. Eu sou prova viva disso.” Lucia – bairro Berger

Querida, que história linda. Verdadeiramente um exemplo para meus leitores. Parabéns por todas as suas vitórias e, principalmente, por essa alegria de viver, que contagia. Lucia é certo que com o passar do tempo o corpo sofre mudanças, mas não o suficiente para calar os desejos e guardá-los em uma gaveta.
A nossa sociedade, apesar de 'moderna', ainda mantém o preconceito de que pessoas com mais de 50 anos não pode mais se dar ao luxo de viver, muito menos namorar. O tempo passou, mas o preconceito permanece dentro e fora de casa.
Muitas famílias não aceitam que o idoso encontre um novo parceiro por receio de que ele se afaste do convívio da família e até mesmo com medo dele deixar de ajudar a cuidar dos netos, ir ao banco, pagar contas, etc, etc e tal. Que egoísmo! Mais muitos idosos por medo de perder o amor da família acaba se anulando e se sujeitando a condição de ficar só.
Ao invés de reprimir devemos incentivar e apoiar o idoso a buscar novos prazeres e, porque não, novos amores. Muitos idosos que passaram dos 50 anos, e que hoje estão sozinhos, acham que já cumpriu seu papel e que não precisa se relacionar com outras pessoas. Imagina que agora é hora de esperar a morte chegar. Infelizmente, conheço muitos que pensam e se comportam assim, mas, conheço outro monte que vive a vida intensamente, a dona Olívia Kogus, é bom exemplo. Mas, não podemos permitir isso.
Gente, não devemos ter medo do novo, não devemos ter medo da nova relação não dar certo e vir a sofrer novamente, medo dos comentários dos amigos/vizinhos e por aí vai. Devemos simplesmente viver bem e feliz cada dia como se fosse o último. Eu mesma posso ter a vida interrompida ainda jovem, então, porque viver pela metade? Vamos viver a vida plenamente e intensamente.
Amiga, enfrentar os próprios medos e encarar a sociedade não é tarefa fácil, mas pode ser muito compensador visto a importância da felicidade no dia-a-dia. Mas, precisamos ter a família do lado, apoiando e incentivando, para ter mais ânimo e vontade de sair.
Como diz a Dra. Olga Inês Tessari: “Não há desvantagens em iniciar um relacionamento em qualquer idade, desde que seja de interesse de ambos, que se respeitem e se aceitem como são. Agora, as vantagens são muitas: desde a alegria de sentir-se amado e desejado, de ter uma pessoa para somar e compartilhar e, até mesmo, de ter uma companhia no dia-a-dia.” Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Pense nisso!
Com carinho,
Lidiane Cattani Rabello - jornalista