3 de outubro de 2026
Crônicas

17/07/2011

Por Márcio Roberto Goes

Ébrio

Quando eu não bebo... E quase nunca bebo... Sou feliz, mas dentro de minha felicidade sóbria, vivo a realidade, sofro, rio, choro, entristeço, alegro, luto, venço, perco, estresso, desestresso, enfim sou um ser humano, vivo...

Quando eu não bebo e você bebe, me embriago junto, perco a noção do que é certo e errado, faço coisas impensadas, me irrito mais, amo menos, sou menos feliz, desprendo menos sorrisos, faço mais cara feia, deixo de ser irmão, sou um monstro...

Quando você está sóbrio, sentimo-nos mais família, nos abraçamos, beijamos a fronte um do outro, fazemos palhaçadas, arrancamos sorrisos até perder o fôlego, nos respeitamos e respeitamos as pessoas ao nosso redor, sinto-me mais irmão, sou de novo um ser humano graças ao poder divino do sangue que nos une...

Quando você bebe e eu não bebo, você fica chato, sem noção, sem pudor, sem freio nas palavras, sem objetivo, sem coordenação motora, começa tudo e não conclui nada, ofende, afasta as pessoas, mente descaradamente e culpa o resto do mundo pela situação...

Quando eu não bebo e você não bebe, passeamos com o cachorrinho, visitamos os amigos, rimos muito, rimos até das desgraças, rimos das cinzas do pai, das lembranças da mãe e da infância pobre que ambos vivemos e vencemos... Vemos graça em tudo, nos comparamos com os avós, saímos vendo lojas sem a mínima intenção de comprar alguma coisa, ligamos os aparelhos de som do mostruário, fazemos festa com as músicas das promoções do capitalismo, conversamos com os vendedores sem pressa, rimos e somos ridos... A vida é uma comédia!...

Quando estamos sóbrios, juntamos restos de guarda-roupas jogados nas calçadas para reciclar e fazer prateleiras, paramos o carro e pedimos para alguém do supermercado se podemos pegar as caixas de madeira empilhadas do lado de fora, sempre arranjamos utilidade para elas, pintamos, reformamos e damos vida para aquilo que foi descartado pelos seres humanos descartáveis, sejam eles físicos ou jurídicos...

Quando eu não bebo e você bebe, perco o rumo, me distraio, bato o carro, durmo de menos sofro demais, viro as costas para o álcool que me rouba o irmão, volto para casa chorando, não trabalho direito, não consigo rir, não consigo arrancar sorrisos até perder o fôlego, fico áspero, sem vida, sem perspectiva, sem ânimo... Morro um pouco a cada porre seu... Você se mata um pouco a cada garrafa e não percebe...

Quando ambos não bebemos, conversamos sobre tudo, consertamos o mundo, o mundo nos conserta... Fico feliz ao ver teu sorriso sóbrio e receber teu abraço caloroso... Já não temos pai nem mãe, temos um ao outro e mais três irmãos... Somos uma família quando eu não bebo e você não bebe...

Quando você está ébrio e eu sóbrio, a família desaba, divide opiniões, divide vidas, tudo é desconfiável, o medo e a insegurança são constantes, a festa acaba antes da hora e, às vezes nem começa...

Quando eu não bebo e você não bebe, a família se completa, lutamos juntos, repartimos esperanças, as vidas são unidas e confiáveis, somos fortes, nos divertimos, tudo vira festa...

Quando não convidamos a caninha, a festa dura mais tempo os sorrisos e a felicidade são mais presentes... Somos, enfim felizes...

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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