Recuo
Infelizmente, nossa jovem democracia ainda obriga as massas a radicalizarem para que se cumpra seus direitos garantidos por lei... Não seria preciso, se aqueles excelentíssimos eleitos por nós para criarem e fazerem cumprir as leis, o fizessem, verdadeiramente, voltados aos interesses do povo...
Estou voltando de uma greve de quase sessenta dias, dos quais, participei de trinta, resultando menos do que sonhávamos... Porém, já conquistamos alguns avanços que, sem a pressão popular, jamais seriam realidade, apesar de ainda estarmos aquém daquilo que manda a lei federal...
Não fomos derrotados. Estes dias, aparentemente perdidos serão repostos e, mesmo que não fossem, não são eles que vão definir o nível de qualidade da educação pública em nosso estado... Nossos governantes pregam uma educação de vitrine, gostam de construir e inaugurar obras gigantescas e vazias, querem que cumpramos duzentos e tantos dias letivos, mas não nos dão as devidas condições de trabalho que começam num salário justo e vão até as salas equipadas e escolas bem estruturadas...
Todos pagamos impostos, parte deles deveria ser destinada à educação, mas nem aquilo que a lei manda chega integralmente ao destino, prova disso foi o fato do governo federal negar ajuda ao nosso estado por perceber, a meu ver de forma justa, que Santa Catarina tem dinheiro de sobra para pagar o piso e melhorar nossas condições de trabalho... Mas onde está essa verba toda?...
Conferi minha conta corrente e lá não está, portanto não sou culpado pela defasagem do meu salário, nem pela situação precária em que se encontram nossas escolas, apesar de muitas pessoas assim entenderem e acharem justo aquilo que contemplam nossos contracheques...
Entendo que não voltamos à sala de aula derrotados, tivemos muitas vitórias, colocamos a cara nas ruas, nos posicionamos contra este sistema opressor que joga tudo de cima para baixo, esquecendo-se dos protagonistas que estão diuturnamente em sala e vivem na pele a situação que os engravatados tentam mascarar... Entenda-se este fato como um recuo, pois a luta continua, ainda há muitos degraus a serem subidos até a escola de nossos sonhos...
Valeu a pena ouvir críticas, pais indignados, governo estadual desestruturado e desgastado pela situação que ele mesmo e seu antecessor criaram... Valeu a pena até ser chamado de vadio por aquela bruxinha sem vassoura. Valeu muito a pena ser reconhecido nas ruas e na capa do jornal, recebendo inúmeras mensagens de apoio ao nosso movimento... Valeu a pena lutar, de forma justa e legal pela valorização de tudo aquilo que construímos ao longo de nossas vidas no magistério público...
Como disse a colega Amanda Gurgel: “Não me sinto constrangido, quem deveria sentir-se constrangidos com esta situação são os governantes”, afinal, como já escrevi, receberam o voto da maioria para cuidar dos interesses do povo. Não cumprir este papel, deveria ser motivo de grande vergonha...
Não me arrependo de nada nesta luta, assim como todos os meus colegas que marcharam conosco... Volto de coração e alma limpos, por fazer parte de um grupo de educadores conscientes e politizados que não se calam diante das injustiças que nos rodeiam... Volto feliz pela aula de cidadania a céu aberto nas ruas centrais de Caçador... Volto orgulhoso pela coragem de não se calar diante de quaisquer autoridades que foram procuradas por nós para discutir nossos direitos... Volto agradecido ao apoio incondicional de muitos pais, alunos, de uma fatia considerável da sociedade, do SINTE e de outros sindicatos parceiros...
Enfim, volto para continuar esta aula de cidadania no melhor lugar para se conhecer pessoas: a sala de aula. Volto com a certeza do dever cumprido. Este recuo é apenas o intervalo do lenhador para amolar o machado a fim de revigorar as forças para continuar a luta...
Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br