3 de outubro de 2026
Crônicas

12/05/2011

Por Márcio Roberto Goes

Cumpra-se

Não sei até quando um povo suporta ser pisado, massacrado e humilhado... Só sei que, na qualidade de professor, estou indignado vendo nossa classe ser tratada igual a porcos que ficam com os restos dos outros... Qualquer profissão a nível superior, tem valorização muito maior que a nossa em qualquer instância, seja particular ou pública nas esferas municipais, estaduais, ou federal...

Tenho muito orgulho em ser professor, sinto muita vergonha pela falta de consideração de alguns colegas que não lutam pela classe e, principalmente, daqueles engravatados que foram eleitos por nós para defender nossos interesses, mas sabemos que na prática a coisa é diferente...

Desde 2008 existe um piso salarial para o magistério público, estipulado pelo governo federal e, alguns governadores (inclusive o nosso que mudou de sigla, mas continua defendendo os mesmos interesses capitalistas engomados), acham-se no direito de negar aquilo que a lei nos garante com a desculpa de que não há verba, ou é necessário esperar uma decisão não sei de quem, blá, blá, blá.... Primeiramente, o governo federal garante ajuda financeira aos municípios e estados que não tiverem orçamento suficiente para pagar o valor do piso aos profissionais de educação, desde que se comprove a situação calamitosa... Nosso estado não se manifestou para documentar a falta de verba, o que leva a crer que ela existe, se não nosso governador já tinha pedido ajuda... Ou ainda, não há interesse por parte das autoridades na valorização real e concreta dos professores de escola pública... Sinceramente, voto nesta última opção...

Vemos uma educação de vitrine, cheia de construções faraônicas, superfaturadas e ocas, pois dentro destes prédios magníficos não se encontra quase nada que possa, de fato, melhorar a educação como um todo: estrutura, material de pesquisa e prática, valorização do profissional... Simplesmente se inauguram novos prédios e o professor é jogado lá no meio do nada, com uma construção linda e vazia, sendo obrigado ao contorcionismo moral e intelectual a fim de se fazer um trabalho realmente significativo na vida destes alunos...

Alguém me disse que seria melhor eu mudar de profissão, em virtude do descontentamento, que existem pessoas com faculdade trabalhando em pontas de caixa e no chão de fábrica; e por isso deveria me conformar. Outro alguém me veio com esta frase: “A educação já esteve pior!”...

Parece que os excelentíssimos se agradam com nosso conformismo, nivelam por baixo, dão esmolas, dizem que já esteve pior, querem nosso sorriso e satisfação, afinal está melhor que antes...

Pode até ter sido pior no passado, mas o presente poderia ser muito melhor, não fosse o descaso das autoridades e de algumas pessoas da comunidade, formadas por nós, que dizem ser perda de tempo esta luta por melhores salários e condições de trabalho...

Não sou advogado, nem engenheiro, nem médico, valorizo cada um destes profissionais, mas valorizo também o meu trabalho que, para ser digno, precisou do mesmo tempo de formação que o deles, no entanto, nossa recompensa financeira é menor... Não podemos esquecer, porém, que qualquer destes profissionais, um dia precisaram de professores para validar aquele diploma bonito que ostentam na parede... Portanto, não se trata apenas de uma luta particular dos professores, mas de toda  uma comunidade que dependeu, depende e dependerá de nosso trabalho digno, honesto, magnífico e desvalorizado...

Abono e gratificações não são salários... O piso é lei. Cumpra-se...

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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