3 de outubro de 2026
Crônicas

03/04/2007

Por Márcio Roberto Goes

DIA DE PROVA

Tudo pronto... Segunda aula de uma daquelas terças-feiras amarelas, indigestas, sem graça e depressivas daquela turma de segundo ano de ensino médio em uma escola pública de Caçador... Oito e meia da manhã: o pensamento ainda dividido entre a cama quentinha e confortável de duas horas atrás e o recreio de quinze minutos, que promete aparecer uma hora e meia mais tarde...

Esta rotina é brutalmente interrompida pelo professor de Língua Portuguesa e Literatura que aparece à porta para ministrar as próximas duas aulas, trajando seu casaco preto, segurando em uma das mãos a pasta preta e na outra, um maço de folhas de ofício grampeadas três a três que são a razão da rotina transformada em preocupação e nervosismo... Tudo isso porque na primeira folha, além do cabeçalho e das orientações sobre o preenchimento do documento, está impresso as seguintes palavras: Avaliação bimestral...

- Quero quatro filas! – pede o professor – Vamos desmanchando os grupinhos!

Mais do que depressa, os alunos ajeitam-se conforme o solicitado, cada um a seu modo: O preguiçoso demora mais do que o necessário só para ganhar tempo para alimentar seu nervosismo... A apressada corre para não perder mais tempo... A escandalosa resolve arrastar a carteira, nada silenciosa, para mostrar a que veio... A pessimista, vagarosamente leva seu material e sua carteira para o local desejado reclamando: - Só vou assinar o nome! Não sei nada mesmo!... O CDF corre e posiciona-se no primeiro lugar, próximo à mesa do professor... O outro preguiçoso, senta-se no fundão e confere, discretamente a cola já preparada com antecedência...

As provas são distribuídas... Os alunos ao recebê-las, parece que assistem o último minuto de jogo entre Brasil e França, nas oitavas de final, tamanha é a tensão que expressam em seus olhares... O professor, com cara de “tacho” observa tudo, mas não vê nada do que deveria (ou finge não ver). A prova segue silenciosa e corrupta... Os olhares e as atitudes comunicam a lei do menor esforço e o descaso com o conhecimento, em consultas freqüentes à mão rabiscada, ao lenço cheio de códigos, à folha do vizinho, à meia que insiste em ser puxada para cima, à parede que dá a resposta imediata, porém nem sempre correta, ao caderno descaradamente aberto no colo e muitas outras artimanhas que todo bom “colante” criativo inventa para estudar menos e fingir que aprende mais.

A menina nervosa, já não tem mais unha e rói a tampa da caneta... O CDF entrega a prova primeiro e muito tempo depois os outros, um a um, fazem o mesmo.

Sobrou tempo! Que maravilha! Cinco minutos de descanso antes do recreio: A menina com o percing tira-o e aproveita o buraco na língua para introduzir um arame e assustar seus colegas... Dois ou três ficam pendurados na janela olhando o movimento (ou a falta dele)... O rapaz do gorro preto levanta-se, repentinamente gritando: - “Eu vô mijá!” – e dirige-se até a porta.

Bate o sinal... É recreio! Quinze minutos de relax e já nem se lembram mais da prova que tanto os fez sofrer e penar por quase duas horas-aula. Agora, só resta pensar numa desculpa criativa para entrar mais tarde na quarta aula e tentar ganhar (ou perder!?) mais um pouco de tempo.

Professor Márcio Roberto Goes

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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