3 de outubro de 2026
Crônicas

05/05/2011

Por Márcio Roberto Goes

Tô voltando pra ficar

Todo trabalhador tem direito ao descanso, a fim de revigorar suas forças para uma nova jornada de trabalho. Além de ser um direito, a folga é uma necessidade humana e combate o estresse...
 Mas o ócio nem sempre é agradável, principalmente quando se ama a profissão abraçada e se dedica a cumprir seu dever da melhor forma possível...

Estive gozando de uma licença prêmio durante três longos meses da minha vida, logo depois das férias de fim de ano, o que somam quase cinco meses... Meu Deus! Cinco meses longe da escola!... Cinco meses “azedando” na cama!... Cinco meses sem me comunicar com alunos e professores!... Cinco meses de descanso. Verdade?... Mentira!...

Quando saiu a portaria da minha licença, pensei que não iria aguentar tanto tempo longe da escola. Ao decorrer dos dias comprovei que minha angústia era verdadeira, pois não deixei de visitar o educandário que me faz feliz, periodicamente, apesar de alguns colegas incomodarem-se e me mandarem de volta pra casa descansar: “Quando eu pegar licença, não quero nem passar perto da escola.” Dizia um... “Não vejo a hora de me aposentar!” Ponderava outro! “Você é louco. Vá viajar, se distrair...”

De fato, segui o conselho deste: viajei, me distraí, passei uns dias fora da cidade. Porém ao retornar, o primeiro lugar que mereceu minha visita foi a alface gigante do Martello, meu querido Wandão... Está certo que precisamos descansar, porém alimentar ódio pela escola durante a folga é preparar a desgraça moral e intelectual futura de professores e, principalmente, alunos...

Durante minhas férias prolongadas, muita coisa mudou ao meu redor: mudei de jornal impresso, temos pela primeira vez, uma presidenta da república, uma mulher também esteve a frente do executivo municipal durante quase trinta dias, presenciamos uma inédita cassação de prefeito e vice, e uma eleição indireta também inédita. A oposição e a situação tiveram uma relevante e surpreendente mudança de posição. Nomearam nova direção para nossa escola e para a gerência regional de educação. Quiseram calar minha voz... Quiseram me ouvir...

Para as más línguas, fui diretor de duas escolas estaduais aqui da nossa cidade, traí e fui traído, quiseram minha retirada... Porém nenhum fato comprovado, já que todos sabiam detalhes dos acontecimentos cujo protagonista era eu, que não sabia de nada... Todos me perguntavam, mas ninguém ouvia a minha resposta, ninguém sabia minha versão, ou aversão...

Já as boas línguas orientaram os bons e maus ouvidos para me ouvir... Conversei com jovens e adultos, alunos do CEJA de Caçador e Rio das Antas... Iniciei um trabalho voluntário no projeto PESCAR CDL... vivi grandes experiências... Ri e fui rido, Chorei e fui chorado... Alegrei e fui alegrado... Li e fui lido... Ouvi e fui ouvido... Vivi e fui vivido... Morri e fui morrido... Estudei e fui estudado...

Agora, estou de volta... Reinicio o trabalho que sempre me realizou e, apesar de alguns me julgarem utópico e sensacionalista, sinto-me extremamente feliz em poder ser este grão de areia na construção de uma sociedade um pouco melhor... Dei a volta ao mundo sem sair das redondezas: falei novas palavras e descobri algumas antigas, chorei novos choros, sorri novos sorrisos, senti novos sentimentos, conheci novos desconhecidos e desconheci velhos conhecidos... Errei novos erros e acertei novos acertos, acertei velhos erros e errei velhos acertos... Quebrei paradigmas, iludi, desiludi... Transformei e fui transformado... Fui e voltei.

Voltei ao melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas. Voltei para o local de onde nunca deveria ter saído: A sala de aula, mas não é qualquer sala, ela pertence a uma escola pública, o que a torna ainda mais nobre...

www.marciogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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