3 de outubro de 2026
Crônicas

01/05/2011

Por Márcio Roberto Goes

CEJA cidadão

Semana passada tive a honra e a satisfação de fazer duas visitas ao CEJA (Centro de educação de jovens e adultos). A primeira, segunda-feira, na vizinha cidade de Rio das Antas, a convite da professora de Arte, Marta Aparecida Goes que acumula o cargo de minha irmã. Lá conversei sobre a arte de escrever com alunos, na sua maioria moradores do interior da cidade e que, com muitas dificuldades, se deslocam quilômetros para saciar a sede do conhecimento, ainda que em tempo diferente da maioria dos seres humanos...

Já havia estado outras vezes por lá, acompanhando a Martinha no exercício de sua missão como professora de jovens e adultos. Sempre fui bem recebido, respeitado e indagado em diversos assuntos do cotidiano. Todos os alunos têm algo a dizer, lhes falta serem ouvidos... Todos querem ouvir o professor, falta-lhes o interesse sincero dos educadores... Mas, como nosso tratamento sempre foi de amigos, estávamos livres destas barreiras, inclusive com a professora...

Na quinta-feira, foi a vez do CEJA de Caçador. A convite da professora Marinês, lá estive e encontrei com a professora Kátia, ambas minhas colegas de faculdade. Minha conversa com os alunos também foi acompanhada pela professora Karem, todas as três habilitadas em língua Portuguesa e Literatura, como eu....

Em ambas as turmas, mesmo tratando-se passagens rápidas, conversei com alguns alunos que me procuraram no final do evento. Todos tinham algo a dizer e acrescentar nas minhas palavras, fossem elas escritas ou faladas, alguns traziam comentários positivos, outros negativos, outros ainda sugeriam assuntos para textos futuros, porém a maioria queria mesmo expressar a satisfação e a admiração pelo fato de se identificarem muito com aquilo que escrevi em determinado texto, ou falei durante o encontro...

Esta foi minha grande surpresa da semana: Existem pessoas crentes de que minhas palavras foram escritas para elas, se identificam com o texto, têm uma história semelhante para contar, riem, choram, indignam-se, sentem vontade de mudar a realidade... Sei que não se trata de um milagre das minhas palavras, mas da enorme vontade do povo expressar suas ideias e, às vezes sentem uma certa realização sentimental ao verem que alguém escreve palavras que os fazem buscar sentimentos, muitas vezes sufocados por este mundo versátil, capitalista e desumano...

Nos dois casos, terminamos um pouco antes do horário costumeiro das aulas, o que é, de certa forma bom para alunos do noturno que poderão descansar mais cedo a fim de recuperar suas forças para o trabalho no dia seguinte. Mas, tanto em Caçador, quanto em Rio das Antas, vi alunos, mesmo já dispensados abordando as professoras para saber se não teriam aqueles poucos minutos restantes de aula, indagando sobre trabalhos, tarefas, ou pesquisas... Em todas as escolas em que trabalhei, dificilmente encontrei alunos que reclamassem ao sair mais cedo da escola, a maioria sentia prazer em “perder” tempo... Será que isso é uma característica inerente aos jovens e adultos que não querem nem precisam mais perder tempo? Ou será que não estamos ensinando aos nossos alunos a verdadeira importância do tempo que passamos nos bancos escolares?...

A verdade é que nem sempre poderemos ter  uma segunda chance. Quando a temos, agarramos de unhas e dentes, se não, corremos o risco da estagnação que leva a inércia moral e intelectual: Tudo o que os poderosos querem, pois um povo sem conhecimento é fácil de manipular...

Cabe a nós, profissionais da educação, sobretudo de jovens e adultos, seja qual for a área de atuação, não deixarmos de levantar discussões sobre assuntos, fatos e ideias cotidianas que regem nossas vidas de cidadãos...

www.marciogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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