O amor de duas pessoas inteiras é mais saudável
Lidi, conheci um homem maravilhoso. Ele me completa em tudo. É tudo que qualquer mulher sonha, quando o assunto é homem. Estamos vivendo juntos há seis meses, mas, agora ele quer que eu abra mão da minha carreira para me dedicar exclusivamente para cuidar dele, da casa e dois filhos que fazemos planos de ter. O problema é que não estou disposta a abrir mão da minha vida, da minha carreira e aceitar as suas exigências. Será que não amo ele o suficiente a ponto de abrir mão de tudo pelo nosso amor? Ana Claudia - DER

Ana, não acho que sua duvida seja com relação ao amor que sente por ele, mais com a escolha que está sendo, de certa forma, ‘obrigada’ a fazer. O que eu acho é que você está agindo racionalmente, está conseguindo separar a razão da emoção. E isso é o mais correto. Como eu já falei outro dia. “Para a gente poder ser feliz juntos, temos que ser feliz separados também”. Esta é uma fala da personagem Helena (Taís Araújo), na novela Viver a Vida. Resumindo: Ela quer dizer que para ela poder ser feliz com o homem que ama, primeira ela tem que ser feliz com ela mesma, ou seja, ela tem que estar realizada como pessoa e como profissional. Por mais que o homem tenha condições de manter todas as despesas da família sozinho, a mulher que é independente, jamais vai conseguir viver as custas do marido, por mais que seu ganho seja inferior ao dele. Isso significa realização. Isso significa se sentir útil, produtiva. Qualquer mulher até poderia aceitar as condições num primeiro momento, mas com o passar do tempo passaria a se sentir infeliz e de qualquer forma o casamento não teria sucesso. A mulher voltaria atrás nas suas decisões e partiria em busca da sua realização pessoal e profissional, e claro, de uma pessoa que aceitasse suas ‘escolhas’. Tu vê Ana que dinheiro não é tudo. Dinheiro é bom quando é a gente que ganha. Quando sabemos que o que temos foi comprado graças ao dinheiro que ganhamos com o nosso trabalho. Não tem satisfação maior. Quando alcançamos esta realização, poderemos sim, se dedicar a pessoa que amamos.
Querida Ana eu vejo que as relações afetivas estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor. O que se busca, hoje, é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.
Ana a ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade não existe. Desde que me conheço por gente que ouço que o amor romântico parte de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade para nos sentirmos completos. Como dizem por aí: encontrar a tampa da panela, a metade da laranja, a alma gêmea, etc, etc e etc.
Acredito que a palavra de ordem de hoje é parceria. Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente. O amor é feito de duas pessoas, se ambas estão felizes, ficam juntas, caso contrário, ambas conseguem viver separadas.
Eu vejo que as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem fração, mas que são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.
Ana a nova forma de amor, ou mais amor, tem novo significado. Visa à aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar sua individualidade.
Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afetiva. A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do passado. Cada cérebro é único. Não podemos abrir mão da nossa vida, da nossa individualidade, da nossa privacidade, simplesmente para agradar, ou pensar que vai segurar alguém. Isso só vai adiar um pouco mais a separação. Por isso Ana te digo, o nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. E sei que você já tomou a sua decisão.
Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea, o parceiro ideial/perfeito e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto. O maior erro que percebo nas relações é o hábito de projetar no outro o que desejamos, e aí... é mesmo só uma invenção que mais dia, menos dia, vai desmoronar como um castelo de areia. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal.
Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro. Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia e o respeito pelo ser amado. Nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém: algumas vezes, você tem de aprender a perdoar a si mesmo.
Com carinho,
Lidiane Cattani Rabello - jornalista