BOLACHA RECHEADA
Andava perdido pelas ruas do centro da cidade, que, aliás, estão muito bonitas, de uma beleza que também mereceria ser vista e aproveitada pelos bairros, quando parei em um ponto de ônibus para esperar a “lotação”... Não sei se foi uma boa idéia sair a pé para voltar de ônibus coletivo, visto que a passagem ultrapassa o valor do combustível que eu gastaria se fizesse o mesmo trajeto de carro, mas em todo caso, um automóvel a menos na rua, significa também, menos poluição...
Sentada no ponto, uma senhora aparentando seus sessenta anos que trajava um uniforme de escola municipal ainda da administração anterior e uma jaqueta marrom, tudo em estado lastimável de conservação, o girassol do agasalho mudara de cor para marrom igual à jaqueta. Calçava um chinelo em estado semelhante e apenas um pé de meia (quem sou eu para julgar? Certamente ela sentia frio em um só dos pés). Comia despreocupadamente uma bolacha de chocolate que levava até a boca com aquelas mãos tão limpas quanto seu modelito de verão, cujas unhas chegavam a formar uma francesinha preta e amarela, por conta dos vários dias que não viam água. Tinha cabelos de uma maciez tamanha que se assemelhava aos fios de alta tensão que passavam sobre nós...
De repente, ouço um ruído semelhante à água escorrendo. Procurei ao redor para me certificar se estávamos perto de alguma tubulação com vazamento, mas nada vi... O céu estava limpo, não se tratava de chuva... Olhei por cima do muro, no estacionamento... Não tinha ninguém lavando carros, também as calçadas ao nosso redor não estavam sendo lavadas, com exceção daquela debaixo de nossos pés, que já estava quase inundada. Segui o caminho daquele líquido muito mal cheiroso, e descobri sua origem: O agasalho azul daquela senhora... Mas agasalho azul com estampa de um girassol de administração anterior não vaza nenhum líquido pelas pernas. Cheguei a uma realíssima e triste conclusão: aquilo era urina, ou para ser menos elegante: mijo humano produzido natural e despreocupadamente por aquela senhora que não se importava em continuar a comer sua bolacha recheada e admirar a paisagem.
Parece que eu era o único, naquele local atento a este fato. Um senhor ao meu lado pediu-me cinqüenta centavos para inteirar o valor da passagem... Pegou o dinheiro e saiu... Não entendi porque precisava daquele valor para voltar a pé... Enfim, voltando minha atenção ao esvaziamento público da bexiga daquela senhora, percebi que ela continuava indiferente, comendo bolacha e jogando “o que não presta” fora. Ao terminar o serviço, fechou sua cena cinematográfica com três batidas rápidas do chinelo contra seu calcanhar ensopado, como que encerrando um ritual que para as pessoas normais seria o ato de puxar a descarga.

Meu ônibus chegou e não pude ver o resto da cena, mas fui até o Sorgatto pensando: O que leva uma criatura a tomar tal atitude?... Bexiga solta? (no caso, muuuuiiito solta)... Distração demasiada?... Falta de banheiro em casa? (se tiver casa)... Carência afetiva?... Ou marcação de território?... Seja o que for, não combina, nem um pouco, com bolacha de chocolate recheada.
Márcio Roberto Goes