Vassourinhas encantadas
Era uma vez duas vassourinhas jovens, bonitas, perfeitas, de cerdas macias e cheias de sonhos... Uma verde, outra amarela, ambas de náilon da melhor qualidade... Fresquinhas, recém saídas da linha de produção que garantiu o sustento de vários trabalhadores, apesar de nenhum deles ter a merecida recompensa pelo milagre da produção...
Ainda na expedição de uma empresa qualquer ganhadora da licitação, conversavam sobre seus planos, uma ao lado da outra: “O que será de nós?”... Indagava uma. “Para onde iremos?”... Perguntava a outra. “Queria ser escalada para varrer a rampa do planalto, por onde passam muitas pessoas importantes”... Sonhava a primeira. “Eu gostaria de me instalar no gabinete da presidenta, com ar condicionado e todo o conforto possível, para varrer o caminho dos convidados mais especiais do país”... Delirava a segunda.. As duas sonhavam... Ambas queriam ser nobres... Viajavam em suas utopias...
Mas para as vassouras não é permitido sonhar... Seu destino cruel é amarrotar toda aquela cabeleira macia de náilon onde quer que seja para que tudo esteja limpo e arrumado, são eternamente dependentes das mãos que as operam... É preciso destruir-se para construir um ambiente mais limpo e agradável... Nunca deixarão de arrastar-se com suas cerdas coloridas para garantir a limpeza, a não ser que sejam adquiridas por uma bruxa que as usará como meio de transporte cortando o céu em voos rasantes... Mas isso só acontece nos contos de fada... É utopia, como os sonhos de nobreza das nossas amigas vassourinhas que juntas, formam o par mais famoso das cores da bandeira nacional...
E eis que nossas amigas foram levadas para o mesmo caminhão... “Será que teremos o mesmo destino?”... Perguntava ansiosa a primeira... “Espero que sim.”... Ponderava a segunda... E durante todo o caminho seguiam confabulando sobre seus sonhos de varrerem as sujeiras mais nobres deste país, penetrarem os ambientes mais chiques e importantes da nação...
Chegaram, finalmente ao destino, o entregador, antes de descarregá-las, deixa uma fresta aberta por onde a primeira pode ver o mundo lá fora... “E então, onde estamos?”... Perguntou a segunda... “Você não vai acreditar!” - “No palácio do Planalto?” - “Melhor!” - “Nossa! Então estamos no gabinete da presidenta?” - “Não estamos nem perto de Brasília, mas isso aqui é muito mais nobre!” - “Meu Deus! Viemos parar no vaticano?” - “Não exagera! Mas mesmo assim é um dos lugares mais importantes e edificantes do planeta” - “Diga logo! Onde estamos?” - “Veja você mesma!”...
E a porta se abriu totalmente. Puderam ver de perto uma escola pública estadual... Cheia de crianças brincando. Era hora do recreio, alguns adultos cuidando para que a infância e a adolescência perdidas não causassem nenhum problema. Enfim, uma escola normal...
“Que bom! - Disse a segunda – Vamos nos juntar às outras vassouras e fazer aquilo que nos cabe: limpar o chão por nonde passam os futuros gênios de nossa nação”...
“Isso é mil vezes melhor que a rampa do planalto!- Exclamou a primeira - pois aqui ainda passam pessoas de coração puro e com ideias que podem revolucionar aquela rampa lá de cima, tornando-a sinônimo de justiça e igualdade, se espalhando por todos os poderes de todos os estados e municípios!”...
Mas de forma desumana e cruel foram jogadas num armário onde deveriam esperar até que fossem úteis, o que não demorou muito, pois logo descobriram que seriam disputadas por quatro funcionárias que só teriam elas como materiais de limpeza por muito tempo... Porém, apesar de solitárias, sentiam-se realizadas ao perceber que varriam o caminho das pessoas mais nobres das nobres: os estudantes e seus mestres que juntos são a esperança de uma faxina moral na política e na igualdade de direitos garantida pela nossa constituição...