NARIZ PRA TODA OBRA
Há algum tempo atrás, assisti ao Globo Repórter, depois de ser obrigado a ver o BBB, numa torturante espera... e chamou-me a atenção o assunto em questão: como dar a volta por cima no desemprego. Muitas idéias interessantes, como: confeccionar carros alegóricos para o carnaval, trabalhar em casa via Internet, cuidar de idosos, o que, além do mais é uma atividade altamente social e gratificante, ou trabalhar como homem engarrafamento, sendo pago para fazer uma atividade altamente estressante para a grande maioria dos motoristas com uma diferença: sem pressa nenhuma de chegar ao trabalho.
Mas dentre todas as profissões, no mínimo estranhas, propostas pelo programa, uma me deixou portentoso: “cheirador de carro novo”. É isso mesmo, quem assistiu ao programa não me deixa mentir... Dá pra imaginar uma pessoa que ganha a vida para cheirar carro novo?... Já ouvi falar em degustadores de comida e bebida, que também se valem do olfato para serem mais precisos, mas de cheirador de carro novo é a primeira vez... (vivendo e desaprendendo!).

Em virtude do grande número de desempregados e da imensidão de revendedoras de carro em nosso município (mais ou menos uma por quadra, creio eu), quero propor aos comerciantes e trambiqueiros de automóveis, um curso profissionalizante para cheiradores de carros, não só novos, mas usados também, porque, afinal de contas, carro velho é o produto mais comercializado no ramo em nossa cidade e também merece ser cheirado por narizes profissionais. Tem revendedor que até coloca o carro no acostamento com o ano de fabricação e os preços expostos à tinta no pára-brisa, ocupando uma vaga, muitas vezes mais valiosa do que a mercadoria, para quem procura um lugarzinho para estacionar...
Formando cheiradores de carro profissionais, cria-se mais emprego, mais mão de obra especializada (digo, nariz de obra especializado) e se obtém mais um item no valor de compra e venda dos automóveis: o aroma, que não tem recebido muita atenção na venda de carros usados, principalmente os mais velhos, que por mais pré-históricos que sejam, nunca valem mais do que o meu golzinho noventa e um, castigado um bocado pelos buracossaulos, na visão da maioria dos revendedores que sempre querem levar vantagem em cima do comprador.
Mas não pense que cheirador de carro é uma profissão fácil, já fiz a experiência, e não é nada agradável o odor de um automóvel usado, por vários dias exposto ao sol e à chuva com os vidros fechados, bateria fraca, pneu furado, um banho de tinta meia boca e uma placa de vende-se escrita com canetão azul e letras díspares (não duvide, esta condução consegue ser vendida por um valor muito além do justo)... Nem eu nem minha rinite alérgica gostamos, principalmente dos ácaros e do odor de mofo, mas para você que está desempregado e é bom de nariz, pode profissionalizar-se, contudo não esqueça de fazer um seguro de seu principal instrumento, porque ninguém está livre de uma gripe ou outra moléstia, que podem danificar o aparelhinho de cheirar.
Márcio Roberto Goes
De carro velho, mas cheiroso.