3 de outubro de 2026
Crônicas

09/12/2010

Por Márcio Roberto Goes

Natal feliz

Já falei neste espaço sobre as inúmeras surpresas e experiências que vivo na sala de aula das escolas públicas por onde passo... Muitas delas positivas e algumas, nem tanto. Neste final de ano, quando todos estão “de saco cheio da escola”, não vendo a hora de receber o resultado final e “vazar” para as merecidas férias, algumas turmas do Wandão me surpreenderam profunda e positivamente, dando um exemplo de cidadania, solidariedade e desprendimento em favor dos mais desassistidos pelo poder público e pelo capitalismo, criado para enriquecer quem já é rico e empobrecer ainda mais os miseráveis...

Fizemos, em sala, várias discussões, análises de textos e letras de músicas: Iniciamos com a famosa carta do chefe indígena Seatle, de 18....., remetida ao presidente dos Estados Unidos que queria comprar as terras de sua tribo. O cacique, por sua vez, destacou que a terra é de todos e não deveria ser vendida, ou comprada, pois o que valia na sua tribo era a partilha em detrimento a propriedade privada que aos seus olhos e a seu coração, parecia um roubo da liberdade de usufruir de tudo o que a mãe terra tem a oferecer...

Em seguida, ouvimos e debatemos sobre a letra da música “Cidadão”, de Zé Geraldo, destacando que, no mundo atual, os trabalhadores não têm direito, nem mesmo àquilo que suas mãos produzem. Fizemos o mesmo com a canção “Milho aos pombos” do mesmo autor, enfatizando a importância de se tomar uma atitude, ao invés de ficarmos “sentados na praça dando milho aos pombos”... Foi aí que se revelaram os corações solidários e preocupados com a situação dos seres humanos ao nosso redor. A partir daquilo que foi debatido e estudado em sala, tivemos nada menos do que três campanhas de arrecadação de donativos para ajudar na busca de um Natal mais igualitário...

Uma das turmas, a 101 matutino, conseguiu entrar em contato com a Cáritas Solidariedade que fará a distribuição das roupas, brinquedos e alimentos arrecadados pela turma... Já a 105, do curso técnico em edificações que espera ansiosamente a estrutura prometida desde 2006 para o bom funcionamento do curso, preocupou-se com os idosos e crianças doentes, fazendo a distribuição na Casa Lar e na ala infantil do hospital... A 103 noturno, optou por ajudar as turmas do CAIC que funcionam dentro do nosso prédio, trazendo o Papai Noel para distribuir brindes entre elas. Não gosto muito da figura do “bom velhinho” que distorce totalmente o sentido do Natal, mas a ideia é boa e por uma causa nobre...

Sei que as três campanhas podem parecer  um tanto assistencialistas e não resolverão a situação de tantas famílias que passarão mais um natal na miséria, mas meus alunos de ensino médio, por iniciativa própria estão fazendo a sua parte na construção de um mundo mais justo e protestando contra esta diferença exorbitante que ainda existe entre pobres e ricos, criada pelo capitalismo selvagem que só valoriza as pessoas de sucesso, e esquece dos pobres anônimos que são obrigados a viver de acordo com o que os poderosos decidirem... Porém, o poder deles foi dado através do voto, também pelos pequeninos que deveriam merecer maior respeito...

Meus alunos fizeram três atos grandiosos, provando, infelizmente, a tese de que só os pobres são capazes de ajudar os pobres, enquanto a elite tem outras coisas a se preocupar e não pode perder tempo tentando fazer um Natal um pouco mais feliz para aqueles que já não têm esperanças de um futuro melhor e já não alimentam expectativas de ter uma qualidade de vida merecida e garantida pela constituição federal...

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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