3 de outubro de 2026
Crônicas

04/11/2010

Por Márcio Roberto Goes

Ela conseguiu!

Sempre tive a postura de analisar e estudar bem meus votos. Nunca votei sem antes conhecer, o mínimo que fosse, o candidato que mereceria ter seu número digitado por mim na urna, no dia da eleição...

Mas como a maioria dos brasileiros, estive quase desiludido. Neste segundo turno consegui me aborrecer com o horário eleitoral... Infelizmente, propostas é o que menos se via nas propagandas eleitorais na TV. Prevaleciam os insultos, críticas, manipulação de fatos e números, na maioria das vezes para denegrir o outro, nunca para ajudar o povo a conhecer melhor o candidato e sim para tentar fazê-lo odiar o concorrente...

Mas enfim... Infelizmente, a política (Ou a politicagem) tem dessas coisas, ainda... Porém um fato me deixou muito feliz e esperançoso. Creio que qualquer militante de esquerda como eu ficaria: Elegemos a primeira presidenta do Brasil desde que se tornou república... Não vou dizer aqui que ela vai ser outra Princesa Isabel e abolir todas as escravaturas morais e éticas que ainda existem, mas que o Brasil tem potencial para dar um grande salto pelas mãos de uma mulher, isso tem...

Nasci no final da ditadura... Participei de movimentos estudantis. Não fui torturado nem exilado. Graças a Deus!... Mas presenciei a primeira eleição para presidente depois de vinte e quatro anos de repressão. Apesar de ainda não votar, já imaginava um operário barbudo com um dedo a menos vencendo barreiras, quebrando tabus e transformando meu país... E lá se foram quatro eleições até que visse meu sonho realizado...

Primeiro, veio o caçador de marajá, cheio das palavras bonitas, jovem e exibicionista... Ainda bem que eu não tinha nenhuma conta bancária na época, senão estaria confiscada... No entanto caçaram o caçador de marajá que deu lugar ao “Fuscamar”: Eu e o João dos Sonhos Azuis que somos apaixonados por fusca, ficamos exultantes de alegria ao vermos o besourinho sendo fabricado de novo no Brasil. Mas também não se viu muitos avanços na área econômica e social...

Nas eleições seguintes, eu já tinha, com muito orgulho, meu título de eleitor... No dia da votação, contive meus ímpetos de sair por aí mostrando o meu documento que ainda estava com cheirinho de novo e me daria passaporte para adentrar a cabine e tornar concreto o desejo de ver aquele metalúrgico no palácio do Planalto... Não foi desta vez. Elegeu-se o sociólogo... Menos mal, já que, teoricamente, quem estuda sociologia deve saber como resolver os problemas sociais de um país continental como o nosso... Foi ai que vi nossa moeda mudar de nome depois de muitas outras tentativas: Cruzado, Cruzeiro, cruzeiro novo, cruzeiro real, URV e, finalmente Real (não necessariamente nesta mesma ordem)... Mas ainda não era o que sonhávamos, queríamos mais e o plano Real deixou o sociólogo por dois mandatos...

E o grande dia chegou! O operário conseguiu, degrau por degrau, subir ao posto máximo do nosso país, com votação recorde conquistou popularidade e criou programas que ajudaram muita gente a voltar a sonhar, inverteu o jogo com o FMI e nos fez passar por crises financeiras como se nada tivesse acontecido... Foi re-eleito, provando que estávamos no rumo certo...

Agora, elegemos a primeira mulher para o cargo mais alto do executivo... Apesar de todas as barbaridades do horário eleitoral, ela chegou lá e provou que as mulheres podem e devem conquistar seu espaço, mesmo diante de tantas blasfêmias... Depois de mais de quinhentos anos de história, foi preciso um operário dar o rumo certo para nosso país e agora é a vez da economista, que também venceu barreiras e quebrou tabus... Nossa primeira presidenta tem uma grande missão pela frente, continuar as melhorias iniciadas pelos seus antecessores. É fácil fazer algo de bom quando tudo está mal, difícil é manter e aumentar o nível daquilo que já está em crescimento, mantendo a autenticidade e fazendo um mandato novo sem esquecer as coisas antigas...

Lula, o operário, já cumpriu sua missão, sai do governo com índices invejáveis de aceitação que deixam qualquer doutorzinho engravatado “no chinelo”... E agora entrega sua faixa presidencial para uma mulher, que apesar de tantos movimentos pela igualdade, ainda sofre muita discriminação por parte da sociedade... Mas ela conseguiu!... A Dilma conseguiu!... Fez e fará, como protagonista, parte da história deste país: a nossa história...

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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