3 de outubro de 2026
Crônicas

30/09/2010

Por Márcio Roberto Goes

Galo da madrugada

O celular desperta com a “Bailanta do tio Flor”, opto pela soneca. Cinco minutos depois, o tio Flor volta a insistir no fato de que eu devo abandonar o berço para mais um dia de trabalho... Finalmente, coloco meus pés no chão, uma muda de roupa, toalha, chinelo de dedo... É debaixo do chuveiro que costumo filosofar, é lá que tomo a maioria das minhas decisões e foi lá que optei por este texto que ora é lido por vossa senhoria...

Esquento a água no micro-ondas, essa maravilha do mundo moderno que recebeu um hífen da nova ortografia para separar seus termos e torna minha vida mais confortável. Duas colheres de açúcar e uma de café solúvel acompanhadas por um pouco de leite... Pão, margarina, presunto e queijo (de vez em quando temos estas guloseimas em casa...). Meu cachorro se aproxima desconfiado... Tenho um ataque de espirro... Ô Cide! Vê se coloca menos perfume no meu cãozinho da próxima vez que der banho nele! Tenho o nariz biônico e a rinite não perdoa nem o melhor amigo do homem...

Lá fora, os ruídos da madrugada: Alguns pássaros cantam timidamente saudando o novo dia que desponta, de vez em quando um carro passa, outro esquece a lombada e quase se desmonta no freio... Uma tosse na casa ao lado... Opa! Tem mais alguém acordado... Lá longe, um galo canta saudando o novo dia...

O mundo ao meu redor parece estranhar o momento, na rua, só cachorros e bêbados... Por vezes, o vento bate na janela querendo entrar para conferir a veracidade do fato... É a mais pura verdade: cinco e meia da manhã e este escriba interiorano (Como diz o Eduardo), já está acordado... Fato inédito! Meu cachorro e toda a natureza ao redor têm razão de estranhar. Tudo respira diferente quando mudamos a rotina.

Sempre gostei da madrugada, mas sempre fui dormir com ela, raramente acordo antes do sol... Hoje é um marco na vida deste modesto escritor que daqui a pouco se prepara para mais um dia de trabalho no melhor lugar do mundo para se conhecer gênios: a sala de aula... Desta vez, porém não precisarei terminar de acordar na escola, pois as ramelas já abandonaram meus olhos a duas horas e meia...

Para alguém que gosta das letras, a madrugada é favorável, não tem os ruídos da vida agitada debaixo do sol, ninguém bate à porta vendendo artigos inúteis, distribuindo santinhos daquele candidato que só aparece em época de eleição, ou vendendo frutas fresquinhas. Não tem ninguém testando a equalização do carro no último volume, o portão não desliza sobre os trilhos, enfim, nada atrapalha uma obra literária, a não ser a ausência de ideias que, por vezes persegue a cabeça dos escribas...

Tudo conspira a favor da Literatura de madrugada, sempre gostei desta inspiração. Dantes escrevia quase dormindo, agora escrevo quase acordando... Em ambos os casos, o sono é o precursor dos sonhos e para escrever é preciso sonhar...

De qualquer forma, gostei da experiência de acordar com a madrugada, ao invés de ir dormir com ela: Não existe nenhuma resistência por parte das pessoas ao meu redor, ninguém estará me esperando para dormir, afinal ela já estará dormindo e sonhando com os anjos, não haverá problemas com a chegada que atrapalha o sono de quem espera, pois a saída traz menos desconforto, enfim, não existe empecilho, a não ser a preguiça, para quem quer acordar cedo e curtir um pouco do silêncio inspirador que só a madrugada proporciona...

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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