3 de outubro de 2026
Crônicas

29/07/2010

Por Márcio Roberto Goes

Fusquinha teimoso

Meu personagem preferido, João dos Sonhos Azuis passa por cada uma. Outro dia o encontrei na rua saltitando alegremente de mãos dadas com sua esposa. “O que é isso?” – Perguntei curioso. “Estamos comemorando a compra de uma nova máquina de lavar roupas”... Interessante! Pessoas normais esperam grandes coisas para comemorar: Riqueza, status, fama, hexa campeonato mundial de futebol... Mas o João comemorava alegremente a compra de uma simples máquina de lavar que só bate a roupa, nada mais... É curioso como os seres humanos esperam da vida muito mais do que precisam...

Pois bem, num desses finais de semana, João dos sonhos azuis colocou sua família no fusquinha da cor de seus sonhos e foi a um jantar beneficente, aliás, esses jantares são os melhores, por serem mais simples, baratos, a comida é muito melhor que aquela chiqueza toda dos restaurantes refinados. Além de ser por uma boa causa e, o melhor de tudo, sempre acaba em bailinho, destes familiares, que cada um dança do jeito que aprendeu e se não aprendeu, é uma ótima oportunidade para isso, mesmo que seja no dois prá lá e dois prá cá, simples...

O jantar estava ótimo, macarrão, galeto, saladas diversas, maionese e pão: tudo o que uma pessoa de hábitos simples precisa para estar saciada... João comeu “de ficar quadrado”, como dizia minha mãezinha, e para fazer digestão, ele que é um pé de valsa, puxou sua esposa para dançar... Há muito tempo não se divertiam tanto. Um pequeno evento destes serve, muitas vezes, para reconciliar um casal desgastado ou que anda meio desanimado com a relação...

Fim de janta. Fim de baile, mas a noite estava apenas começando, pois jantares e bailinhos familiares não varam a madrugada... Ao retornar ao lar, João para o fusquinha azul para abrir o portão de sua casa da mesma cor do fusquinha e de seus sonhos... Ao tentar dar partida novamente, nenhum sinal de vida, o motor de arranque não tinha forças para arrancar... Parece que sua condução da cor de seus sonhos havia cansado mais que a família nesta noitada, estava sem energia, descarregara a bateria que já estava fraca há dias...

João, além de sonhador, é teimoso e cismou de fazer seu carro funcionar ainda antes de dormir. Ele e a mulher, igualmente teimosa, assumiram a missão de fazê-lo funcionar. Empurra pra lá, empurra pra cá... Mas não havia força suficiente que fizesse uma tonelada de ferro pegar embalo. Era preciso empurrá-lo até a ladeira, mas para isso era preciso tirá-lo da frente do portão e seguir um pequeno trecho morro acima... Não havia força o suficiente para tanto... “Vamos desistir”, dizia ele... “Por que não tentamos mais uma vez?”, dizia ela, ambos ensopados de tanto fazer força... Até que o fusquinha, mais teimoso que ambos, chega a uma posição complicada, atravessado no meio da rua, não tinha como amanhecer daquele jeito, alguma coisa precisava ser feita...

Eis que surge uma luz no meio da escuridão, aliás, duas luzes, um casal de namorados que interrompia seu momento romântico para ajudar outro casal a resolver aquela situação atravessada... Juntos, conseguiram manobrar aquela condução azul e sem energia até a descida, onde foi fácil “pegar no tranco”. Depois disso, já na garagem, o “herb blue” ficou, durante dez minutos acelerando calçado por um pedaço de lenha, a fim de carrear as forças para o dia seguinte, todas as luzes se acenderam e as janelas ficaram repletas de populares. Por fim, o casal sonhador repousa no seu ninho de amor para revigorar as forças, com todas as luzes apagadas e o fogo da paixão reacendido...

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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