O cobra-aranha
Certo dia, em uma de suas aventuras para salvar o mundo do crime, o homem-aranha veio defender a justiça no Brasil, mais especificamente no meio-oeste de Santa Catarina. Uma gangue havia planejado assaltar uma fazenda da região, estava tudo pronto, entrariam por entre as araucárias pulando a cerca de arame, enquanto um deles esperaria com a caminhonete no portão principal da propriedade, para carregar o dinheiro, vários objetos de valor e o refém. Haviam muitas relíquias naquele local, coisas muito valiosas. Um dos ladrões, o mentor do crime, havia trabalhado vários anos na fazenda e a conhecia como a palma de sua mão. A ele cabia a missão de render seu ex-patrão e levá-lo até o banco para retirar parte da fortuna... O crime perfeito!...
E eis que o homem-aranha chega distribuindo teias entre os delinquentes, imobilizando-os como sempre fez no cinema, mas num de seus saltos, pisa numa cobra que reage automaticamente picando sua perna... Aquilo não lhe fez mal algum, pois a aranha também é venenosa, até mais que algumas cobras... Este fato não impediu nosso herói de cumprir seu dever de defender as pessoas do perigo. Aquela frase ouvida de seu avô: “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”, sempre ecoa em sua mente quando luta contra o crime... Porém suas grandes responsabilidades deliraram. Por conta da mistura dos venenos, ele acabou soltando os ladrões e comemorando até o sol raiar num boteco de beira de estrada... O crime, de qualquer forma foi evitado e o proprietário da fazenda não ficou sabendo do fato...
No dia seguinte, o fazendeiro sai cedo para vistoriar sua propriedade, fruto de uma demarcação feita sem regras no início do século passado por seus antecessores, fato que sacrificou muitos filhos da terra: Kaigangs e Choklengs. Hoje, seus remanescentes sobrevivem em condições subumanas... Pois bem, o fato é que nosso coronel foi fazer seu passeio matinal pisando, orgulhosamente, na sua propriedade e, para senti-la melhor, tirou as botas... O que ele não sabia é que, naquelas terras haviam seres rastejantes, invejosos, perigosos, venenosos e frustrados por viverem com a barriga arrastando naquele chão tão valioso sem poder usufruir dos frutos da mais-valia... Sentiu uma picada na perna direita, dolorida, ardida, venenosa... Olhando para baixo, só avistou o rabo da serpente para fora da calça, com o pé esquerdo, pisou naquela cauda afastando a perna direita até que o inimigo estivesse todo a mostra... Assustador! Uma aberração da natureza, uma mutação: Era um réptil preto com a cabeça vermelha envolvida por uma teia negra e olhos brancos, a cara do homem-aranha... Sem pensar duas vezes, o latifundiário passou a mão num machado próximo e decepou a cabeça do bicho...
Sua esposa, igualmente nobre, de uma nobreza fétida que faz qualquer um perceber-se miserável, dá-se conta de algo estranho e corre para ver o que havia acontecido. Encontra seu marido delirando: “Ela tinha a cara do homem-aranha” - dizia ele - “Só que era fininha e comprida... Ela me mordeu, minhas vistas estão embaçadas, não consigo me mover direito... Chame o médico muié!”...
A esposa, não sabendo bem o que havia acontecido, vendo seu marido delirando ao lado de uma jararaca decepada tenta ligar para o médico. Na correria, pisa no que restou da cabeça do bicho rastejante, deixando penetrar a sobra do veneno. Ainda consegue fazer a ligação. Ao ouvir que seu marido tinha sido picado pelo cobra-aranha, o médico desliga sem se dispor a ouvir o resto... O rico fazendeiro e sua mulher morrem, desfalecem, esmorecem em cima de sua cobiça, picados pela herança genética do super herói que , mesmo indiretamente acabou fazendo justiça, pois a propriedade foi dividida entre aqueles que não tinham um pedaço de terra pra plantar, já que nosso nobre fazendeiro não tinha herdeiros e sua esposa sucumbiu também pela própria cobiça... Acabava ali a herança da exploração... Um sonho!...
Márcio Roberto Goes