3 de outubro de 2026
Crônicas

18/03/2010

Por Márcio Roberto Goes

Penico voador


João dos Sonhos Azuis recebeu, em seu trabalho, uma notícia nada agradável: a morte de seu pai a trezentos e cinquenta quilômetros de distância. Precisava viajar com urgência... Isso quer dizer revisão no fusquinha da cor de seus sonhos: documentos, extintor, pneus, freios... Tudo em ordem! E o resto? Bagagem, materiais de higiene pessoal, roupa, calçado... É difícil pensar com discernimento depois de uma notícia dessas, afinal não é todo dia que se perde o pai... Lastimável, mas o jeito era engolir a realidade e juntar todas as forças para dirigir seu besourinho até o litoral... Tudo deveria ser organizado o mais rápido possível para seguir viagem de forma segura, apesar do grande abalo emocional que sofrera...

Enfia, então, sua família dentro de seu possante da cor do céu e pega a estrada... Até certa altura permanecem mergulhados num silêncio sepulcral que é quebrado por um de seus irmãos com a seguinte construção frasal: “Preciso mijá”... O recurso foi parar no posto do primeiro trevo... Depois da urinada, nosso sonhador órfão toma o rumo errado: “Estranho este caminho”... Admira-se João... “Não lembro de ter passado por aqui nas outras vezes”... “Estamos perdidos”, declara apavorada sua irmã...

Ao pedir informação, nosso sonhador de sonhos azuis a bordo de seu “herb-blue” descobre que viajou na direção errada por oitenta quilômetros tendo que retornar até o ponto da mijada fatídica, onde morava a confusão...

Enfim, nosso sonhador de sonhos azuis quase abortados pela morte de um ente querido retoma a direção certa para o funeral de seu progenitor.... Transita por estradas precárias onde até caminhões carregados de tora sofrem para fazer ultrapassagens a mais ou menos cinco quilômetros por hora... Finalmente chegam ao destino. João e seus irmãos conseguem velar em paz o corpo de seu pai...

Depois de uma noite inteira sem dormir, a viagem de volta é uma incógnita entre urinadas e buracadas que sempre aparecem de supetão em virtude das defecadas das autoridades na verba pública, tendo que escolher entre chegar vivo, ou inteiro... Precisando carregar bem a bateria de sua bola de cristal para descobrir, antecipadamente, as curvas e obstáculos, já que até a sinalização fugiu para meio do mato com medo do excremento em forma de buracos que abalam o fusquinha celestino e o bolso do nosso sonhador depois do orçamento para os reparos na suspensão que o deixa “mijando na barba” de raiva...

Nada trará seu pai de volta, porém o descaso com a qualidade das rodovias, obriga o João e milhões de motoristas por este Brasil afora a gastarem quantias desnecessárias em reparos que poderiam ser evitados se o dinheiro do pedágio fosse utilizado para os devidos fins... E para agravar, alguém o distrai por causa de um problema que seria perfeitamente resolvido com um penico... Bem, na estrada, nem mesmo penico resolve a diurese, nem a diarreia moral que somos obrigados a suportar por causa do descaso... Culpa nossa! Por que insistimos em confundir urna com penico?... Afinal, muita gente faz na urna (não a funeral, mas a de votação) o que o irmão do João fez naquele posto e o que as autoridades fazem com nossas estradas... Este ano vamos, de novo tentar escolher qual será o menos pior para continuar voando e se regozijando com nosso dinheiro. É preciso analisar muito bem nosso voto para que não ajudemos a encher as cuecas e as meias dos excelentíssimos novamente...


Márcio Roberto Goes

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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