3 de outubro de 2026
Crônicas

30/12/2009

Por Márcio Roberto Goes

No ano que passou


No ano que passou, vi ser empossado o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos da América, vi sua popularidade saltar e diminuir... Por aqui, vi dinheiro sendo escondido na cueca, nas meias e sabe Deus onde mais, as pessoas envolvidas alegarem que se tratava de uma atitude de segurança, já que um deles dizia não usar pasta... Vi também o presidente mais popular da América Latina e, porque não dizer atualmente do planeta, sendo homenageado com um filme que conta sua história até tornar-se líder sindical...

Aqui mais próximo, vi um líder que, antes do povo que o elegeu,  deve satisfação para sete siglas que não se entendem, inaugurar um parque central... Lindo, maravilhoso, útil e prioritário, não fosse o fato de os bairros estarem há muito tempo esquecidos, para dar maior espaço ao centro da cidade... Agora, porém, todo mundo quer ser pai da criança, uns dizem que a maior parte da verba veio do governo federal, outros insistem que foi o governo do estado quem mais investiu nesta obra faraônica, outros ainda, idolatram o chefe do executivo... Ainda há aqueles, mais sóbrios que percebem o resultado de um esforço sobrenatural dos três... E o povo menos assistido, esquecido e abandonado dos bairros, quem se esforça por ele?... Parece que a população só é prioridade no palanque...

Neste ano que se finda, vi capivaras sendo mortas na beira do rio, um sacerdote assassinado de forma desumana e cruel... Vi uma criança de dois anos, supostamente vítima de magia negra, sendo espetada por diversas agulhas em seu corpo indefeso, obrigando-a a ser submetida a várias cirurgias para desfazer a atrocidade cometida por seus semelhantes...

Em 2009, vi a ortografia sofrer mudanças em nome de uma unificação que nunca será possível, pois a reforma é ortográfica e não de vocabulário nos oito países lusófonos espalhados por este mundão de meu Deus...

Mas não foi só o mundo a minha volta que mudou... Eu também... Mudei de endereço, de operadora de celular, troquei de carro... Apesar de alguns dizerem que agora estou quase a pé, sinto-me realizado em poder dirigir novamente um fusquinha, é caso de paixão mesmo... dizem que fusca não anda... É verdade, ele desfila... e eu não tenho pressa, aliás, nenhum motorista deveria ter.

No ano que passou, vi um ursinho panda tomar a atenção de minha aula, sem nenhuma culpa, pois um fato desses é sempre proveitoso nas relações pessoais da escola... Vi também minha escola perder parte do telhado da área de convivência, nos obrigando a fazer a solenidade de formatura de ensino médio na câmara de vereadores. Nada contra o local, até foi muito melhor que em nosso prédio em virtude da estrutura, além do mais fomos muito bem recebidos na casa do legislativo que é a casa do povo, porém não se pode esquecer do fato que nos levou a tomar tal decisão. A falta de um telhado não atrapalha apenas uma formatura, mas torna muito desconfortável o cotidiano de professores e alunos, principalmente em dias chuvosos. As autoridades dizem não ter verba... Não entendo. Será que a escola é uma pseudo-prioridade só para arrecadar votos?

Por fim, terminei o ano vendo três de meus textos publicados na Antologia Delicatta IV, sendo o único representante caçadorense nesta obra que reúne autores brasileiros e portugueses...

Como todo ano para todo ser humano, 2009 foi cheio de oscilações, mas o que importa é que vivemos o suficiente para partilharmos estas histórias corriqueiras, fatos indignantes, vitórias e derrotas que agora escrevo nestes poucos caracteres... E se você leu mais um texto meu até o final, formou uma opinião, seja ela favorável ou contrária, trocou ideias com seus interlocutores, isso já constitui mais uma vitória em minha vida... E que 2010 continue sendo assim, que possamos expor e defender nossas ideias em busca de uma vida melhor, mais democrática, humana e igualitária, mesmo respeitando as diferenças...

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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