3 de outubro de 2026
Crônicas

05/12/2009

Por Márcio Roberto Goes

Padronização excludente

Atualmente, quase tudo é padronizado e fabricado em série, ou seja, se você quiser algo que não agrade a maioria das pessoas ao seu redor terá que pagar um preço muito alto, financeira e moralmente... Além disso, mesmo que não queira, aquele, ou aquela que tem medidas fora dos padrões estipulados pelos ditos “normais”, sofrerá duras penas para adequar-se a este mundo capitalista, selvagem e globalizado... Um pé adulto menor que 35, ou maior que 44, dificilmente encontrará um calçado que lhe agrade... Quem não estiver no peso considerado “ideal”, pode “tirar o cavalinho da chuva”, dificilmente, ou jamais encontrará roupas do seu gosto, o mesmo acontece com as medidas verticais, pois o ser humano, para este mundo padronizado, não pode crescer mais de um metro e noventa centímetros, do contrário, não poderá  vestir-se adequadamente, sentar-se, ou dormir confortavelmente, nem passar por uma porta sem a preocupação de bater a cabeça...

Existem muitas e muitas leis de inclusão, porém o mundo continuará sendo excludente, enquanto mantiver a ideia de padrões e conceitos estereotipados de moda e beleza...

Outro dia busquei na Internet e nas lojas físicas ao meu redor, um telefone celular que aceitasse dois chips... Encontrei vários, mas nenhum me agradou pelo excesso de itens: Câmera filmadora e de fotografia com não sei quantos megapixels, MP3, 4, 5, e não sei quantos outros MPs, rádio, acesso a net, jogos, memória de não sei quantos mega, relógio, calculadora, TV digital e uma infinidade de outras opções exageradamente exageradas e pleonasmáticas para alguém que só quer poder usar duas operadoras diferentes no seu telefone móvel para falar e ouvir... Ou seja, pago caro pelos padrões estipulados pela indústria e o comércio de celulares, ou fico com uma única operadora... Neste caso, a portabilidade e a concorrência do mercado capitalista não me ajudaram em nada...

Pois bem, diante de tantos padrões, quero registrar aqui meus protestos contra a não-padronização de um item muito importante, que passa, por vezes desapercebido em nosso cotidiano:  a data de validade dos gêneros alimentícios... O amigo leitor e a amiga leitora já perceberam o quanto sofrido é encontrar a data de validade nestes artigos?... Quando vou ao supermercado, demoro o dobro do tempo para fazer minhas compras por causa do descaso da indústria em divulgar esta informação... Nos enlatados, por exemplo, cada indústria coloca a data de fabricação e validade onde bem entender, nos obrigando a virar a lata de todos os lados até obter a informação procurada, nos pacotes de macarrão, arroz, feijão e outros não perecíveis, acontece o mesmo, agravados ainda mais por um carimbo meia-boca que nos obriga a adivinhar os números ali escritos. O que dizer então do café e outros artigos embalados com plástico e papel laminados que têm a data de validade cravada na beirada da embalagem nos obrigando a virar-se em todas as posições possíveis para obter a intensidade de luz suficiente para a leitura?...

Então, porque não padronizar a data de validade para que, cada vez que um produto alimentício for comprado, possamos saber o local certo desta informação?... E os astigmáticos, míopes e ceratocônicos como eu, que têm dificuldade de acuidade visual, como fazer para ler as informações mal impressas ou mal cravadas?...

Que inclusão é essa que inclui só aqueles que não se preocupam com a validade daquilo que compram? Os que julgam esta informação importante são obrigados a fazer uma busca visual cansativa até encontrar o que procuram... Que inclusão é essa que exclui aqueles que renunciam aos modismos e estereótipos da vida cotidiana, obrigados a pagar caro para serem autênticos...

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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