Inversão de valores
Dia desses resolvi analisar meu comportamento como profissional e eterno aprendiz que sou... Analisei minhas atitudes, minhas palavras, minha vestimenta... Concluí que está tudo errado ou comigo ou com o resto do mundo...
Há algumas semanas, uma acadêmica de uma grande universidade brasileira comparece à aula em trajes não muito convencionais... Pelo menos é o que se espera de uma universidade... Causa o maior tumulto, aparece na mídia, é expulsa e readmitida pela direção acadêmica e por fim, fica famosa... Já perdi a conta de quantas entrevistas já vi com esta criatura na televisão... Convidam-na para pousar nua... apesar de declarar não ter aceito ainda... Dá uma ajeitada no visual, certamente sob algum patrocínio... Enfim, torna-se uma celebridade, arranja amigos e inimigos, dá autógrafos e muitas pessoas disputam lugar a seu lado para fazer uma foto de lembrança...
Por acaso alguém sabe quem é o melhor aluno desta universidade?... Pois é! Eu também não... Acaso alguém teve preocupação em divulgar isso?... Interpretação a gosto do consumidor... Por aí podemos traçar padrões de valores da nossa sociedade de hoje...
Pois bem, há cinco anos que escrevo crônicas... Já produzi um romance e pedi patrocínio para a publicação... Não consegui sequer uma resposta positiva das pessoas que consultei e poderiam ajudar a cultura e a arte em nosso município. Inscrevi-me no projeto Antologia Delicatta da livraria Cultura de São Paulo, tive três textos selecionados para compor o livro, novamente busquei apoio dos empresários de Caçador. Ouvi respostas do tipo: Não temos verba... Estamos empenhados em outros projetos... O responsável por este setor não se encontra... blá...blá... blá...
Porém, três empresas apoiaram minha modesta obra: Este site e duas que preferem não se identificar, além de algumas pessoas físicas, que também escolheram o anonimato... Consegui ajuda, mas muitas outras empresas e instituições prometeram e não cumpriram, me deixando a espera do apoio que não veio...
Na verdade não pretendo fazer uma queixa egoísta, porque sei que muitos outros escritores e artistas também passam por todo este desgaste para conseguir apoio na sua obra, afinal, as empresas ajudam se levarem alguma vantagem, como sempre... É assim no capitalismo, quem já tem de sobra, sempre quer mais...
Estamos, portanto diante de uma inversão de valores... Será preciso eu ir trabalhar só de cuecas para ser visto e lembrado?... No Brasil, aqueles que têm boas intenções só aparecem quando resvalam na moral, ou quando realmente não têm os melhores propósitos. Enquanto isso, o reconhecimento sorri para alguém que propositadamente chama a atenção fazendo de tudo, menos o que é primordial em uma universidade: estudar... E o conhecimento?... E o reconhecimento?... Continuam irreconhecíveis a olho nu.
Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br