3 de outubro de 2026
Miriam Staskowian

16/11/2007

Por Miriam Staskowian

Experiência profissional e lição de vida na Amazônia

O jovem médico caçadorense, Christiano Bortolon, de 28 anos, escolheu a região Amazônica para colocar em prática o que aprendeu na faculdadede medicina.

Atualmente como oficial do Exército Brasileiro, Bortolon atende militares e suas famílias, além da população indígena.

Longe de casa há oito meses, Bortolon fala nesta entrevista exclusiva, sobre sua experiência, da cultura e das curiosidades do trabalho na selva.

Desde quando está em Roraima?

Estou em Roraima desde março deste ano. Antes de vir para cá, passei um "tempo de apresentação" da estrutura e organização do exército brasileiro, na região amazônica. Esta primeira etapa se realiza anualmente em Manaus e é obrigatória para todos os profissionais médicos, dentistas, farmacêuticos e veterinários que irão ingressar noexército. Atualmente estou em Surucucu (RR) fazendo parte do 4º Pelotão Especial de Fronteira (PEF), na região sudoeste do estado, distante aproximadamente 35 quilômetros da fronteira com a Venezuela, mais especificamente na Terra Indígena Yanomani.

Quais lugares já esteve como militar?

Já estive no 5º Pelotão Especial de Fronteira Auaris, localizado no extremo-noroeste do estado de Roraima, chamada de Terra Indígena Sanomá e Yekuana. E também no 2º PEF, em Normandia e no 1º PEF, localizado em Bonfim, exatamente na linha de fronteira,ambos na fronteira com a república da Guiana. Alguns destes locais, o acesso é possível apenas por vias aéreas.

Como surgiu a oportunidade de trabalhar na Amazônia?

A oportunidade de trabalhar aqui apareceu em 2006, meu último ano de faculdade, durante o processo de alistamento militar. No meu caso, em caráter voluntário, escolhi realizar o serviço militar obrigatório para médicos na região amazônica. E não me arrependo.

Conte um pouco sobre seu trabalho.

Aqui eu sou médico militar, minha principal função é atender os militares e suas famílias, além de auxiliar nas eventuais atividades desenvolvidas pelas Forças Armadas. Também realizamos os chamados Acisos (Acão Cíivico-social) onde visamos atender, neste caso, os indígenas que residem nesta área. Estamos procurando atender atualmente, as pessoas que moram em comunidades afastadas da sede do seu município, situação relativamente comum em Roraima.

Como funciona o Pelotão Especial de Fronteira?

O efetivo de um PEF é de aproximadamente 60 militares, entre oficiais, sargentos, cabos e soldados. Especificamente na seção de saúde, somos em três oficiais: um médico, um odontólogo e um farmcêutico-bioquímico, além de dois soldados especializados na área de saúde em atividades simples como verificação dos sinais vitais, aplicação de medicações e técnicas de resgate e primeiros socorros. Dentro do Pelotão, o tratamento se dá de acordo com os preceitos militares da hierarquia e disciplina. Com relação à população indígena, temos contato constante, porém esse contato é criterioso devido ao fato de muitos índios não conhecerem a cultura e a língua portuguesa. Assim, sempre temos de ter um cuidado muito grande com palavras, gestos e atitudes, a fim de não desvirtuar a cultura indígena, pois os mesmos mostram-se facilmente influenciáveis. Quanto à população civil das localidades afastadas, sempre existe muito respeito por ambos os lados e percebe-se muitas vezes uma grande admiração por parte da população uma vez que a única organização federal que as mesmas têm contato é com o Exército Brasileiro.

Como você classifica o povo e a cultura na Amazônia?

Boa Vista, capital de Roraima, é formada basicamente por migrantes, então existe muita gente do sul, logo alguns hábitos típicos do sul são relativamente comuns como churrasco e chimarrão. Inclusive existe até CTG em Boa Vista. Porém, se percebe que também existe uma influência muito grande da cultura Nordestina, principalmente na alimentação e também não dá par deixar de mencionar o clima, constante na casa dos 30Cº o. O que me chama atenção aqui é que no estado de Roraima são, ao todo, 15 municípios, e 90% da poulação do estado mora na capital. Acredito que seja este o motivo das cidades serem extremamente pequenas e com um grande atraso de desenvolvimento, se comparados aos pequenos municípios do sul, por exemplo. Em Bonfim e Nornadia não há rede bancária convencional, existe apenas o serviço de banco postal dos correios, sem falar que na época das chuvas é quase impossível o acesso a algumas localidades do estado.

Qual a importância para sua carreira profissional e vida pessoal, esta experiência?

Essa experiência é única, de poder andar e chegar a lugares do Brasil quase que ainda intocados, ter oportunidade de conhecer cultura diferente, além de poder aprender e exercitar conceitos de liderança e companheirismo, espírito de grupo. Sem esquecer, é claro, de ter oportunidade de conhecer a estrutura do Exército Brasileiro e vivenciar os padrões militares de hierarquia e disciplina que são essenciais para se alcançar quaisquer objetivos. No ponto de vista profissional, vejo que posso exercer a medicina em uma área tão remota e tão peculiar, faz com que perceba melhor o significado da relação médico-paciente. Além disso, conhecer doenças características da região e ter o contato com profissionais de diversas áreas. Na selva, recebemos a visita de pesquisadores do IBEX (Instituo de Biologia do Exército), da Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz) além de uma constante troca de informações com as equipes da FUNASA. Ressalto ainda, uma curiosidade durante o período que passei na Fronteira com a Guiana, onde era muito comum atender pessoas apenas em inglês pois é o idioma oficial daquele país.

Como é a vida (moradia, saúde, lazer, etc.) de vocês médicos? E como é a amizade entre vocês?

Neste PEF que estou atualmente, é terra índigena Yanomani, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas) o povo mais primitivo da Terra. Então, é comum ver os índios andando nus, portando arcos e flechas, além de outros artefatos característicos e com pinturas e adereços típicos. Temos bom relacionamento com eles, sempre privando pelo respeito. Alguns índios falam Português e contam-nos sobre festas, caçadas, rituais e casamentos arranjados. É muito interessante.

Do que mais sente falta?

Embora a gente tenha acesso a todos os meios de comunicação e jamais fique incomunicável, a saudade dos amigos e familiares é grande e a vontade de estar na casa da gente também, mas tento sempre estar em contato com todos seja via internet ou via telefone (aqui temos sistema de telefonia via satélite). Outra coisa que mais sentimos falta aqui, são de alimentos "supérfluos" tipo sorvete, doces, refrigerantes, sanduíches e frutas, por exemplo. Todos os suprimentos chegam via aérea e quando vamos pra essas áres de selva viajamos com uma bagagem com peso pré-determinado, então, sobra pouco peso para esses gêneros. Brincamos entre nós que aqui é o lugar ideal para perder uns quilinhos, pois aqui não tem frituras, gorduras, nem doces e refrigerantes, e por ser área de segurança e estratégica é proibido o consumo de bebida alcoólica. Mas sem dúvida alguma, o que menos sinto falta é do frio, pois é extremamente prazeroso acordar com uma temperatura acima de 20 graus e um sol lindo lá fora.

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