ERA UMA VEZ, UMA BIBLIOTECA
Nas últimas semanas tenho expressado aqui minha profunda alegria ao narrar minhas visitas às escolas da minha vida. De fato, em cada visita que faço a uma escola, tenha ela feito parte da minha vida até o momento, ou não, descubro novas idéias e novas soluções para nossa escola pública... E sempre carrego boas lembrança e referências magníficas dos educandários por onde passo.
Dia desses, fiz uma visita informal a uma das escolas da minha vida onde trabalhei por cinco maravilhosos anos letivos, primeiramente como ACT (admitido em caráter temporário) e depois compondo o corpo docente efetivo, participei de parte da luta por um prédio próprio que finalmente foi inaugurado no dia primeiro de outubro de 2003, realizando um sonho de mais de vinte e oito anos.
Já na entrada, vejo as cores de quatro anos atrás, totalmente desbotadas, também senti muito ao ver paredes e lajes rachadas... Tudo isso até que é previsível, em se tratando de uma obra pública, feita através de uma concorrência onde quem ganha é o menor custo... (?)... E uma obra barata, significa material de baixa qualidade, durável o suficiente para fazer a moral das autoridades que a “construiram” a fim de se gabar durante o pleito eleitoral... Mas o tempo é cruel e deixa suas marcas inevitavelmente...
Pois bem, nesta querida escola que ainda mora no meu coração, reencontrei amigos, coloquei algumas conversas em dia, repartimos saudades e esperanças, “jogamos conversa fora”... Tudo maravilhoso, a única decepção até então era com as condições lastimáveis do prédio, que aliás se assemelam às da escola onde trabalho atualmente, no bairro Martello: uma construção que tem menos de dois anos e já apresenta vários problemas estruturais: ainda bem que aquela comunidade é de gente guerreira, que não se entrega fácil... Gostaria que as autoridades competentes, eleitas pelo povo, também tivessem a mesma garra e vontade de resolver os problemas estruturais destas construções faraônicas que, na verdade só têm casca... Mas porque se preocupar com o interior se o que “dá voto” é a imagem?...
Nossa conversa pedagógica mudou o tom quando recebo uma notícia ainda mais lastimável (parecia impossível, mas aconteceu): A biblioteca, que aliás era a parte mais bem conservada e estruturada da escola onde trabalhei por cinco anos, simplesmente desapareceu. Em seu lugar: um salão destinado a trabalhos manuais, ensaios em geral, além de palestras e outros eventos... E a biblioteca?... Foi parar num cantinho escuro e abandonado, nos fundos da ala administrativa, com acesso limitado, onde outrora funcionara um arquivo...
Essa cortou meu pobre coração sonhador e apaixonado pela educação! Minha saudosa e modesta inteligência não conseguiu até agora descobrir o porquê de tamanho atentado ao conhecimento... afinal, furtar dos nossos jovens, o direito a um espaço destinado para a leitura é um crime contra a educação. Trabalho numa escola que também tem um amplo espaço destinado à biblioteca, obsoleto desde a inauguração. Nossos poucos livros também encontram-se numa salinha na ala administrativa, mas isso tudo por falta de mobiliário que foi prometido e, como sempre evaporou. Só Deus sabe da angústia que passamos por não podermos usar devidamente nossos laboratórios por falta de equipamentos e por não termos a estrutura prometida e necessária... Mas pior do que não ter é ter e jogar fora.
Márcio Roberto Goes
http://marciocronicas.blogspot.com/