CADÊ O VERDE-LOURO?
João dos sonhos azuis tira seu fusca da mesma cor de seus sonhos da garagem improvisada num puxadinho da sua casa de madeira bruta e dirige-se até o centro da cidade com uma difícil missão: Encontrar uma bandeira nacional com preço acessível, bem como TNT verde e amarelo para enfeitar seu fusquinha com as cores da “Pátria amada, mãe gentil”...
Na primeira loja, uma destas que vende tudo a partir de R$ 1,00, o máximo que ele encontra é uma bandeirinha minúscula de papel para afixar no vidro do carro... fitinhas verde-amarelo, nem pensar.
Prosseguindo sua busca, numa loja mais à frente encontra umas bandeirinhas de plástico com um pequeno mastro para pôr na antena do automóvel, que na primeira acelerada mais forte voa pelo pára-brisas, e isso era tudo o que aquela loja tinha para lhe oferecer, além do péssimo atendimento (aliás, pobre não anima muito os vendedores... Porque será?...)
Numa outra loja mais chique, tudo o que encontra é uma almofada em forma de coração, com as cores da bandeira nacional e a seguinte escrita: “Brazil”... Isso mesmo, com “Z”: fato que comprova que até artigos com as cores da Pátria são produzidos por estrangeiros piratas, ou semi-analfabetos, do tipo que escrevem: “à partir” na placa externa e “apartir” no interior da loja... Ambas grafadas incorretamente, visto que o correto seria: “a partir”.
Nosso protagonista sonhador e patriota, depois de muita procura, resolve ficar com uma bandeirinha de plástico mesmo, para afixar no vidro de seu possante azul da cor de seus sonhos. Volta para casa desanimado por não ter encontrado o produto que naquele momento tornara-se essencial para ele e para sua família.
Tudo isso até seria normal e aceitável, não fosse o fato de nosso amigo João dos sonhos azuis, que agora também são verde-amarelos ter realizado sua busca frustrada em plena semana da Pátria... Burrice dele. Porque não aproveitou para comprar bandeiras durante a copa do mundo?!... Agora é tarde!
Ao adentrar em seu veículo popular da cor do céu e de seus sonhos utópicos, pensava lá com seus botões, enquanto grudava a única bandeirinha que conseguiu comprar, no pára-brisas dianteiro: Porque torna-se tão difícil encontrar uma bandeira nacional com preço acessível em plena semana da Pátria?... Porque não se encontra a mesma dificuldade durante a copa do mundo?... Porque existe a supervalorização do campeonato mundial de futebol, enquanto na semana da Pátria dificilmente encontramos uma vitrine decorada com as cores de nossa bandeira?
É! Parece que o povo heróico que bradou, no passado, de forma retumbante por independência, hoje não se dá mais ao luxo de amar sua terra natal e parece ter vergonha de se pronunciar em favor desta “Pátria amada, mãe gentil”, que pode não ser a melhor do mundo, mas trata-se de nosso país, com seus afetos e desafetos...
Quando vamos ter novamente aquele “raio vívido de amor e de esperança” descendo sobre nós, na esperança da verdadeira independência e soberania?... Assim como o nosso protagonista frustrado e perdido em seus sonhos azuis, também muitos brasileiros sentem-se desanimados por viverem num país capitalista selvagem, onde só se vende aquilo que traz alguma possibilidade de lucro (exploração do povo) acima de cem por cento, o que, talvez não seja o caso das bandeiras nacionais e dos artigos com as cores de nossa flâmula...
Márcio Roberto Goes