3 de outubro de 2026
Palavra Andante

“Ô, não vaishh aquecer o voleio?” ...

Por Rodrigo Espinosa Cabral

Três Lições dos Campeões Kuerten e Sampras

Semana passada, vi uma entrevista do Gustavo Kuerten na ESPN.

O entrevistador perguntou qual foi seu adversário mais difícil? Pete Sampras. Pela precisão e técnica do americano. Guga contou que já era profissional há 5 anos (já tinha vencido Roland Garros em 1997), quando enfrentou o Sampras pela primeira vez, em 1999. Lembrou o jogo com riqueza de detalhes. Estava nervoso. Esqueceu de aquecer o voleio. Sampras percebeu e avisou o colega:

“Ô, não vaishh aquecer o voleio?” teria falado o americano, na dublagem engraçada feita pelo Guga, com o musical sotaque da ilha.

Essa pequena passagem nos diz um pouco sobre a mente dos campeões. Há três lições para tirar.

1) Vencer a qualquer custo é perder para si mesmo. Se tivesse uma mente tacanha, Sampras poderia não ter alertado Guga sobre a ausência do aquecimento. Sem aquecer, seria mais fácil de vencer o brasileiro, que entraria frio na partida. Além disso, poderia sofrer uma distensão e deixar o jogo. Sampras não queria esse tipo de vitória. Talvez porque vencer a qualquer custo seja mais parecido com enganar do que com vencer. Posso ser ingênuo. Pode ser que Sampras apenas quisesse ver de perto o voleio do adversário, mas me parece que Sampras prezava pela saúde do colega de profissão.

2) Vencer com gentileza é vencer duas vezes. Sampras foi gentil. Guga, mesmo perdendo a partida, se recorda e cita o fato após 15 anos. Antes de sermos adversários, somos irmãos humanos, nascidos no mesmo planeta, coexistindo na mesma época. Isso deve significar alguma coisa.

3) Competir com respeito, valoriza a vida. É notável o profundo respeito e admiração de Guga para com seu rival nas quadras. Quem admira, conhece e estuda melhor o oponente. Em seu íntimo, Guga tratava Sampras como alguém próximo, tanto que, ao traduzir a fala do americano, ele a reproduz com o sotaque manezinho. Sampras é estranhamente íntimo. E Guga só atinge esse nível de imersão por ser humilde.

Naquele jogo, Gustavo perdeu 6-2, 6-3. Aquela derrota deve ter rendido muitos aprendizados. Kuerten usou o momento para absorver tudo que pôde de seu adversário.

E, um ano depois, bateu Sampras por 2x1 (7-6, 6-3, 6-4) na semifinal da Masters Cup. Na final, derrotou Agassi por 3x1 e terminou o ano como número 1 do mundo, o primeiro sul-americano a conquistar essa façanha.

http://www.youtube.com/watch?v=fS9HaGz0lOU

Rodrigo Espinosa Cabral

Sobre a coluna

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Coluna Palavra Andante

Rodrigo Espinosa Cabral, brasileiro, vegetariano, gremista. Um pedaço de poeira cósmica que, às vezes, escreve. Palavra Andante, um passeio pelo mundo das letras.

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