Cheguei onde ninguém sai até completar um século de vida: Os “enta”... Verdade, depois dos quarenta vem cinquenta, sessenta, setenta, oitenta, noventa... Acabei de chegar, sou novo por aqui, portanto, estou meio ressabiado e perdido...
Dizem que a vida começa aos quarenta... Vou descobrir a veracidade desta frase, mas acho que, talvez, o que começa é a colheita daquilo que plantamos até então, o que não nos furta a responsabilidade de plantar mais, afinal, agora é que a experiência se mostra realmente necessária na vida de uma pessoa...
Há quatro décadas, lá estava eu, recém-nascido, chorando pelos corredores do hospital Jonas Ramos nas mãos do saudoso Dr Vergílio, já que me apressei às previsões e nasci no quarto mesmo, portanto, não conheço sala de parto nem centro cirúrgico, este, nem pretendo conhecer...
Minha infância e adolescência foram conturbadas, numa família cheia de problemas estruturais e financeiros, vencidos dia após dia por mim e pelos demais familiares... E foi na juventude que descobri a importância da minha presença e do meu trabalho para outros jovens, desde então, nunca deixei de estar com eles e, portando, me sinto cada dia mais jovem e mais chamado a lutar pelos ideais da juventude...
Sonhava ser carpinteiro, como meu pai, depois advogado, enfermeiro, radialista, estas duas últimas profissões, exercidas por mim na década de 90... Mas eu queria mais, não me conformava em ficar só exercendo uma profissão e recebendo o salário no fim do mês... Eu precisava ser, verdadeiramente, alguém atuante na sociedade, alguém que pudesse fazer a diferença... Confesso que, até hoje continuo nesta busca, mas encontrei o caminho aos vinte e seis anos, quando descobri o ofício de professor, desde então, sou carpinteiro de cidadãos, enfermeiro, advogado e locutor: tudo isso ao mesmo tempo, tudo isso no mesmo ambiente: a sala de aula, melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas fantásticas...
Outra confissão minha é que nunca fui um grande estudioso da política, mas, com o passar dos anos, abracei uma ideologia que vai muito além de uma sigla partidária, algo que procura cuidar do ser humano de forma igualitária, respeitando as diferenças próprias da humanidade. Quis ser candidato a cargos eletivos por duas vezes e hoje, sei que não é preciso ser político eleitoreiro para se fazer um bom trabalho em favor dos desfavorecidos... Se surgir uma chance de concorrer no futuro, estou disposto a ir à luta, mas se não for possível, continuarei sendo este grão de areia na tentativa da construção de um mundo melhor para as pessoas ao meu redor... Nem todos que se destacam usam terno e gravata...
Nasci quando o general Emílio Garrastazu Médici era presidente, no auge da ditadura militar, mas só fui ter consciência do quanto este período político brasileiro foi macabro, muito depois... Eu cresci, vendo o meu país nas mãos dos ditadores: Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo... E, finalmente a democracia dava sinal de vida com a eleição indireta de Tancredo Neves que morreu antes de tomar posse. Assume, então, seu vice José Sarney, que até hoje não largou a teta, depois vieram, por eleição direta, Fernando Collor de Mello, deposto, dando lugar a seu vice, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff... Dez presidentes passaram pelo meu país nestas quatro décadas... Carrego comigo o orgulho de ter visto a volta da eleição direta para o chefe do executivo nacional, a votação recorde que elegeu o primeiro presidente vindo da classe operária depois de perder outras três eleições e por fim, a escolha livre e democrática da primeira mulher presidenta do país...
Vi as tecnologias evoluírem a uma velocidade assustadora... Aprendi a digitar datilografando nas máquinas de escrever mecânicas, depois avançaram para as elétricas e, por fim, me informatizei aos trinta anos quando exerci a função de secretário escolar... Fotografei numa época em que se esperava quinze dias para ver o resultado na revelação em papel fotográfico... Demorei vinte e seis anos para ter um telefone fixo e, depois, menos de dois anos par ater meu primeiro celular, pesava como um martelo na cinta e só servia para fazer ligações...
Andei vinte e nove anos a pé, comecei com um fusquinha azul, nunca tive carro zero e nem é meu primeiro objetivo, mas hoje, ando motorizado e saudoso, bem louco pra ter um fusca novamente... Vivi trinta e cinco anos no mesmo bairro, o Sorgatto e, em cinco anos, já fiz sete mudanças, a última definitiva e eterna enquanto durar minha meia-água própria. Hoje, sou um cidadão martelense...
Fui alfabetizado pela minha saudosa mãezinha que hoje, pula de alegria lá no céu, ao ver seu filho mais novo completando quarenta anos de vida terrena, professor, escritor e locutor...
Parafraseando a Sandy Lima; “Sou velho pra ser jovem e jovem pra ser velho”... Dizem que estou na meia idade... Não tenho certeza, pois não sei qual será minha idade inteira... Só sei que espero completar um século de vida no meio da juventude...
Sei que não construí muita coisa material, inclusive sou muito criticado pelos capitalistas de plantão, pois o mundo atual só valoriza quem tem muitas posses, ou dinheiro suficiente para comprá-las, movimentando assim os negócios que ostentam e homenageiam pessoas que crescem, ou se mantém no topo explorando os pequenos...
Parando pra pensar: Quarenta anos se passaram, muitas mudanças aconteceram em minha vida, porém, me vejo como no início: Apressado, ansioso, chorão, teimoso e solitário... Não poderia ser diferente, nem quero, pois a solidão tem me ensinado muito mais a viver do que as multidões tumultuadas da vida moderna...
Recebo de coração e braços abertos meus quarenta anos, cheio de expectativas e com muita vontade de viver, batalhar e continuar vencendo...