3 de outubro de 2026
Crônicas

Wandão, vencendo a escuridão

Por Márcio Roberto Goes

Os piques de luz têm sido um fato cotidiano no bairro Martello... Algo lastimável, pois muito da vida moderna deixa de funcionar sem a energia elétrica, criação de Thomas Edison, agora contestada...

Pensei que este problema tivesse sido resolvido há muito tempo, pois não acredito que não exista tecnologia o suficiente para manter a energia elétrica durante uma chuva forte, principalmente quando não existem vestígios de postes, ou fios danificados...

Uma noite dessas, estava eu trabalhando, como sempre faço, no melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas fantásticas: a sala de aula. Terceira aula, por volta das oito e meia da noite. De repente, cai a anergia. Escuridão completa. Gritedo geral que durou alguns segundos. Em seguida, no meio da escuridão, muito educadamente alguém me pergunta: “Professor, dá pra ligar o celular?”... Claro que autorizei, inclusive já estava ligando o meu para usar a lanterna. Lá de baixo, ouviu-se o grito do diretor: Vamos descer!... Iluminado por algumas lanternas, pedi que alguns alunos esperassem para me ajudar a guardar o material no armário e fechar as janelas... Ficaram todos, ajudaram-se mutuamente a guardar os materiais, um iluminando o outro com o celular e desceram comigo na mais perfeita ordem até a área de convivência...

Novo aviso do diretor: “A janta está pronta. Podem comer antes de voltarem para casa”... Estava correto seu raciocínio e justificava a atitude pelo fato de a empresa terceirizada que fornece a alimentação, não permitir que se partilhe a comida que sobra. Deve ir tudo para o lixo, não é permitido levar nada para casa, mesmo que aquele alimento possa matar a fome de alguma família por alguns instantes. Mas o capitalismo é assim mesmo: competitividade, ao invés da partilha, Egoísmo, ao invés da generosidade...

Todos então se dirigiram para a fila, celulares à mão, iluminando uns o caminho dos outros, serviram-se despreocupadamente, sentaram à mesa, à luz de velas e de lanternas... Uma cena inesquecível: Num dos bairros periféricos de Caçador, esquecido por aqueles que, ano que vem vão lembrar de amassar barro e poeira naquelas ruas para pedir votos e prometer mais um monte de coisas que já poderiam ser resolvidas. Numa escola que, por vezes é rejeitada até pelos moradores da própria comunidade, no meio da escuridão física e moral, um grupo de alunos janta, tranquilamente à luz de velas, revelando o respeito mútuo e a organização que, certamente não brotou naquele momento no coração de todos, ela foi ensinada, praticada na família e na escola que agora serve este jantar de gala proporcionado pelo relapso das autoridades e de grande parte da população que rejeita aquele educandário só por causa de boatos...

Mas poucas pessoas souberam deste fato... Isso não dá IBOPE... Não pode ser capa de noticiário, pois é coisa boa... E se fosse ao contrário, como já presenciei em outras escolas muito bem conceituadas da cidade? Vandalismo total quando falta luz à noite, carteiras jogadas no pátio, cortinas rasgadas, lixeiros queimados... Aí sim, todos iriam saber em tempo recorde... Nada disso aconteceu no Wandão. Pelo contrário, a escuridão proporcionou maior respeito e generosidade do que na clareza obscura do cotidiano de uma escola que, a cada dia, revela mais respeito mútuo entre alunos e profissionais...

Parabéns, Wandão, por mais uma vez vencer a escuridão do preconceito...

Márcio Roberto Goes
Wandão de coração

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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