3 de outubro de 2026
Crônicas

Armação de amor

Por Márcio Roberto Goes

João dos sonhos azuis, certa feita teve seus sonhos descoloridos... Nada mais fazia sentido em sua vida... Não tinha mais vontade de trabalhar, sorrir despreocupadamente, visitar os amigos, ou ser visitado por eles, sair de casa, escrever... Tudo isso por causa de uma ingrata que o iludiu, o fez acreditar que ainda era possível viver um grande amor, despertou os sentimentos mais sublimes em seu peito e depois o abandonou... Pobre João. Seus sonhos agora eram em escala de cinza, descoloridos... Onde estava o azul de seus suspiros, da cor do céu, da cor de seu fusquinha?...

Vendo que a situação estava crítica, seus amigos resolveram ajudá-lo... Era depressão, dizia um... Ansiedade, falava outro... Estresse elevado, declarava o colega de trabalho... Não tem nada, é vadiagem mesmo: Falava com toda certeza um de seus inimigos que vestia a máscara de amigo em sua frente (E olha que desses tinha bastante!)...

 Pois bem, os amigos de João, querendo ter de volta o sonhador dos sonhos azuis fizeram o diagnóstico final: O João precisa de um novo amor... (Sempre tem gente que acha que entende da vida do outro melhor que a própria pessoa, mesmo não se tratando de psicólogo.)

Um de seus queridos amigos, diante da situação caótica em que se encontrava o pobre João, vai falar com ele:

- Tenho uma prima solteira. Posso dar teu telefone a ela?

- Não sei...

- Ela é gente boa, bonita, prendada... Você vai gostar...

- É! Não custa nada tentar...

No dia seguinte, ao meio dia, João recebe um SMS: “Oie! So a Groselha. Meu primo me deu teu num. Poço te liga?”

João sempre foi perfeccionista e não gostou do idioma celularês usado por sua quase provável futura namorada, mas respondeu positivamente a sua pergunta...

Cinco minutos depois ela o liga... Pouco tempo de conversa já prova o provável: A linguagem oral dela era tão ou mais coloquial que o celularês meia boca lido anteriormente... Mesmo assim marcam de se encontrar em frente a uma sorveteria na noite seguinte...

Sábado... Dia tão esperado pelos trabalhadores... Folga para a maioria... Alegria dos namorados, ficantes e afins... Esperança dos solteiros... Sábado à noite, céu estrelado, lua cheia... Uma noite maravilhosa para caçar tatu, escrever e namorar. Momento perfeito para o João ressuscitar seus sonhos azuis... A hora marcada, lá estava o fusquinha azul estacionado em frente à sorveteria, conforme o combinado... Aquele azul não parecia o mesmo, os sonhos já não eram tão intensos, as esperanças andavam meio ausentes dentro daquele veículo e no coração de nosso sonhador... Seus sonhos, em escala de cinza, iam escurecendo cada vez mais... Talvez fosse mesmo um novo amor capaz de trazer à existência novamente todos os sonhos azuis que mantinham vivo aquela criatura de hábitos simples e coração puro... O mundo se encarregou de tirar o coração de seu peito e substituí-lo por uma pedra impermeável e impenetrável... Quem sabe a Groselha não o faria suspirar de novo, sonhar e planejar um futuro feliz e brilhante a dois, a bordo da nave azul?...

Na esquina surge uma sombra. Percebia-se pela silhueta que se tratava de uma mulher: Cabelo estilo abajur, ombros largos, mais ou menos um metro e setenta de altura... Aquela criatura aproxima-se do fusquinha azul pelo lado do passageiro, João abaixa o vidro e ela pergunta: “João?”... “Sim!” - Responde ele meio ressabiado... “Eu sou a Groselha. Posso entrar?”... Por um instante arrependeu-se por não ter ficado em casa vendo as novelas da poderosa do Plim-plim, ao invés de estar ali insistindo num encontro com o abajur ambulante que agora revela um capricho com o corpo igual ao usado nas palavras faladas  e escritas do celularês... Nosso sonhador adormecido conteve-se para não revelar os comentários que norteavam sua mente criativa e permitiu que a moça entrasse em sua nave azul-celeste carecendo de um polimento...

Cinco minutos de silêncio absoluto, quebrados pelo convite do João: “Vamos entrar na sorveteria?”... Groselia confirma com a cabeça... Enquanto esperavam o pedido, João observa a candidata a Senhora Sonhos Azuis a sua frente: Cabelos encaracolados, quase pixaim com um corte daqueles que se coloca uma tigela na cabeça e passa a tesoura rente com a borda para dar um toque todo especial de abajur, olhos castanhos ladeando um nariz de batata, lábios grossos revestidos de um batom exageradamente vermelho e poroso, pele bronzeada e oleosa. Vestia uma baby look rosa e uma blusa azul de crochê com metade dos botões fechados calça jens e sapatos pretos... Aqueles poucos minutos enquanto tomavam o sorvete, pareciam uma eternidade, mas chegaram, com muito custo, ao fim...

Como bom cavalheiro que era, João a leva até a porta de casa... Mais cinco minutos de silêncio dentro da relíquia azul... Desta vez, Groselha resolve tomar a iniciativa:

- Teus dente são uriginal?

Meio desorientado, João tenta compreender a razão da pergunta... Será que seus dentes pareciam prótese?... Mas ele sempre foi caprichoso, escovava regularmente três vezes ao dia... Mesmo achando a pergunta meio sem noção, ele responde educadamente...

- Sim! Inclusive os sisos...

- Eu uso ponte...

Naquele momento, nosso protagonista sentiu medo de continuar a conversa e do que poderia acontecer dali pra frente. Não achava estranho que ela usasse uma prótese dentária, mas lhe parecia um tanto incomum que aquilo tivesse tanta importância para ela naquele momento... O restante da conversa foi ficando cada vez mais formal, percorrendo o caminho contrário àquele que é comum aos primeiros encontros...

- Que idade você tem? - Pergunta João...

- Trinta...

- E por que nunca namorou sério?

- Não sei... Despois do primero incontro, eles nunca voltam...

De fato, nosso amigo João dos Sonhos Azuis acabava de entrar para as estatísticas dos fugitivos do segundo encontro com a Groselha e, por SMS, terminou tudo o que não foi começado... Percebeu então que o amor é muito mais que uma armação... Que por mais boa vontade que os amigos tenham em forçar um encontro entre duas pessoas, elas só ficarão juntas se os corações se comunicarem e, para isso é necessário muito mais do que uma situação que os aproximem. É preciso querer estar juntos... E essa vontade tem que nascer do coração de ambos, não da plateia ao redor...

João então voltou a sua vidinha de sonhador... E, pouco a pouco, seus sonhos iam se colorindo novamente de azul da cor do céu, da cor do mar, da cor do seu fusquinha... João continuou com seus hábitos simples e, sem pressa, alimentava a esperança de um dia poder fazer alguém feliz com sua simplicidade de forma involuntária, generosa e despretensiosa, sem armações...

Márcio Roberto Goes

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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