3 de outubro de 2026
Palavra Andante

29/05/2013

Por Rodrigo Espinosa Cabral

O Dia que Zé Bambu Perdeu o BV

Deveríamos ter mais seguido essa vibração do BV antes de beijar.

Meu amigo Zé Bambu era professor de Yoga lá em Garopaba. Um cara magro, calmo e elástico. Outro dia, na aula de yoga, Zé falava da importância da respiração para a pessoa relaxar. Para ilustrar o que dizia, contou a história de quando perdeu o BV. Para quem tem mais de 40 anos e vive longe do mundo adolescente, BV significa Boca Virgem. A expressão serve para designar os abençoadinhos que ainda não encostaram sua boca em outra boca. Disse o Zé, com seu jeito Zen:

— Faz tempo, pessoal. Foi em 1989. Eu tinha 15 anos e era totalmente, completamente BV. Na época isso me angustiava. Eu achava que era muito velho pra nunca ter beijado ninguém, enquanto nas escolas e no Calçadão a minha geração inventava essa coisa de “ficar” com alguém, que, na época, era só dar uns beijos. Eu via a garotada entrelaçando os moletons na saída do colégio, pela rua e me sentia um excluído da existência. Por fora eu vestia uma calça rasgada e escutava Ramones. Por dentro era puro açúcar com manteiga derretida :D.

A turma, duas senhoras, uma adolescente, uma moça e um barbudo, ria baixinho. Zé continuava:

— Os dias passavam e as manchetes apareciam: “fulaninha ficou com fulaninho”. Não! Sim!... Todo mundo se arranjando, a primavera soltando suas flores e eu nada. Até que... fui na festa de 15 da Joelma Wianna. Pra quem é novo e não sabe, festa de 15 anos e baile de debutante era uma coisa... um evento estranho que existia nos anos 80. Servia para que os jovens fossem apresentados à sociedade. A molecada descolava um terno com o pai ou do avô e ia. Fui. Com um terno xadrez do meu avô...

As senhoras sorriam. As jovens pareciam interessadas e o barbudo tentava meditar. Bambu prosseguia:

— Aquela coisa né: cabelo com gel, gravata e 200 mil anos de antropologia dentro de você. Neste coração que bate e move o sangue, navegam gerações humanas. Você veio de milhares de pessoas que sentiram atração pelo desconhecido e que conseguiram beijar alguém. Tirei uma coragem do fundo do DNA (você também tem esse tipo de coragem. Ela é presente dos nossos antepassados nômades, guerreiros, marinheiros). O corpo sabe.

Bambu ia falando empolgado e fazendo a postura do Guerreiro:

— Então convidei a Tatiane para dançar. E a menina aceitou! Daí a gente tava lá dançando, beleza... e, tchum, tocou Astronauta de Mármore, versão do Nenhum de Nós para um som do David Bowie. É um som antigo, no youtube tem. Daí ela foi chegando mais perto. Eu olhava hipnotizado. Os olhos escuros dela, tipo planetas binários, sabe.

— “Tu gosta dessa música?” — ela me perguntou.

— Mais aproximação. Eu nem sabia o que dizer... “Eu go... MmmKHMmmFghtmmm”

A turma riu. Até o barbudo. Bambu riu também, de leve, e seguiu sua fala:

— Tá, o beijo veio no meio do som. Até aí tudo bem, o problema é que eu não tava preparado e, com dois segundos de beijo, FIQUEI SEM AR. (risos) Que mico. Precisava respirar, mas não queria perder a sensação do beijo... E, claro, não lembrei de respirar pelo nariz! Então... respirei dentro da boca da menina!

— Meeee!!! — disse uma das senhoras.

— Pois é... Daí a música acabou. Ela se afastou um pouco e perguntou se era a primeira vez que eu beijava alguém. Era. Não sei por que, mas nunca mais beijei aquela menina de novo. Mas, quer saber? Foi massa.

E Zé Bambu concluiu dizendo que não devemos ser ansiosos e que a respiração é uma grande aliada. Sem ar ficamos desesperados. O ar é o nosso primeiro amigo neste planeta.

Pegando carona na história do Zé, queria dizer que, se você tem aí seus 13 ou 14 anos ou mais e é BV: Não te desespera, irmão. Daqui a pouco rola. E vai dar tudo certo. Curte o teu BV, porque depois você vai ter a vida toda para não ser BV.

Fica sossegada. Escolhe alguém legal, significativo. Daqui a pouco você pode estar andando pela rua, ele tropeça numa pedra, aterrissa no teu colo e... tchum. Sem stress. Sem angústia. Deixa estar. Mas respira antes. Fuuuundo. E se você fizer uma trapalhada grande, depois vai poder rir disso, quando crescer. Desde que seja feito com amizade.

E caso você já seja casado/a há milhões de anos, pode incorporar a vibe BV e achar um jeito de tirar a teia conjugal, no melhor estilo Geração Z. Brincando de ir descobrindo o outro aos poucos, em meio ao caos da rotina. Com algum susto ou surpresa. Com medo de dar tudo errado. Plugado no mundo. Com o coração vivo.

Enquanto isso, vai estudando firme aí, porque o mundo é dos BVs (casados ou não), dos Nerds, Geeks e CDFs. Namastê.

Rodrigo Espinosa Cabral

Rodrigo Espinosa Cabral

Sobre a coluna

Rodrigo Espinosa Cabral

Coluna Palavra Andante

Rodrigo Espinosa Cabral, brasileiro, vegetariano, gremista. Um pedaço de poeira cósmica que, às vezes, escreve. Palavra Andante, um passeio pelo mundo das letras.

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