3 de outubro de 2026
Crônicas

05/07/2007

Por Márcio Roberto Goes

ETERNAMENTE JOE

Joe era um cara legal, não tinha inimigos (pelo menos não que eu soubesse), Estava sempre aberto às novidades, se desenrolava com facilidade e gostava de estar por dentro de tudo.

Meu amigo era baixinho (cerca de cinqüenta e dois centímetros) e gordinho, mas isso não fazia a menor diferença, pois sempre era flexível o suficiente para tomar a forma do membro que se aproximasse de suas bordas...Usava um chapéu de papel para esconder a carequinha sexy, vivia de língua de fora e não se fazia de rogado em mostrar seu sabor uva para qualquer um que se aproximasse... Vivia gosmento, fato que não o tornava menos importante, pois lhe permitia um melhor deslize, coisa que sabia fazer muito bem... Tinha os olhos azuis, da cor do céu, mas permanecia com os pés na terra e a cabeça na intimidade alheia...

Meu amigo Joe, apesar de não ter braços nem pernas, cativava as pessoas ao seu redor, e se permitissem, as fazia “ver estrelas” ao meio dia: Era só entregar-se ao momento, “relaxar e gozar”, seguindo o brilhante e proveitoso conselho da dona “Martinha Suplicy”, que veio no momento em que o povo menos precisava de ironia...

Bem, voltemos ao meu amigo fiel (ou quase!...): ele era um cara “quietão”, sempre “na sua”, não incomodava ninguém – os outros é que se incomodavam com ele – Sentava com a turma do fundão, sempre encostado na parede graças à fita adesiva, mas não dizia uma palavra enquanto o professor explicava a matéria, nem no resto da aula... Na verdade, ninguém conhecia a sua voz, sabia-se apenas que ele era cheio de gaz e muito leve, não guardava rancor, nem mágoas...

Porém, um dia, um professor mal amado, estressado, desequilibrado, carrasco e invejoso não suportou sua presença em sala, julgando-o pelas aparências: Afinal, um cara cheio de ar, sabor uva, gosmento, baixinho, gordinho, emborrachado e de boca fechada, não servia para a sua aula preocupadamente preparada, somente para pessoas normais. Um “tchô”, que depende de um nó na soleira para manter-se cheio, não merecia viver entre os outros jovens inteligentes e espertos...

Munido de uma caneta esferográfica pontiaguda e afiada, aquele “mestre do terror” caminhou cegamente em sua direção até o fundo da sala. Seus colegas afastaram-se prevendo o perigo que os cercava. Sem se dar conta da atrocidade que estava prestes a cometer, o professor desferiu um único e certeiro golpe sobre o pobre e indefeso Joe que não teve sequer uma mísera chance de se defender...

Era o fim!... Meu amigo Joe explodiu e com ele toda uma história abreviada inutilmente, pois ainda tinha dois anos de validade. Seus amigos, que o construiram com muita dedicação e carinho a partir de um preservativo que não conseguiu preservar a própria vida, criaram até uma comunidade no Orkut em sua homenagem e deixaram em seu lugar, no dia seguinte, uma mensagem de consolo e saudades:

“ Joe, foi muito bom ter conhecido você. Foi uma tragédia o que lhe fizeram... sentiremos sua falta, nunca deixaremos de lembrá-lo, pois você faz parte de nossas vidas. Amamos vc!... Bjus!... Ass: Seus eternos amigos da turma 204.”

Ele se foi sem dizer uma palavra, sem reagir... Pobre, miserável, estraçalhado e virgem...

Márcio Roberto Goes
Profundamente comovido

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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