ELEFÂNCIA
Nestas minhas três décadas de vida, muitas dúvidas me assolaram a alma por muito tempo, para algumas delas, até hoje não encontrei resposta: Porque a mosca tem tanta perna se ela voa?... Quanto tempo demora um minutinho?... Existe minuto pequeno?... Quando usamos a palavra “dinheiro” no plural?... Porque ainda não “ponharam” o verbo “ponhar” no dicionário e na gramática?... Porque ainda não precisei dividir uma oração em “sujeito e predicado” a não ser na sala de aula?... Porque ninguém viu um chester vivo até hoje?... Qual é a fórmula da Coca-cola?... Porque chamamos o milho verde de verde se ele é amarelo?...
Porém uma delas desafiou minha débil inteligência nos últimos dias: É possível colocar um elefante na geladeira?... Como?... Basta abrir a geladeira e pôr o bichinho lá dentro!... Parece uma coisa simples e óbvia e assim seria se o tamanho do elefante não fosse desproporcional ao da geladeira, fato que complica, e muito, nossa missão de enfiar um trombudo no refrigerador.
Por várias noites perdi o sono com essa dúvida... O leitor deve estar me chamando de louco, mas parece ser uma loucura menor do que perder o sono se preocupando com picuinhas e alimentando ódio no coração enquanto o ser odiado dorme tranqüilo... Aliás, alimentar ódio é a mesma coisa que tomar o veneno esperando que o outro morra.
Voltemos à nossa questão elefântica e extremamente útil, afinal, sou perseverante naquilo que acredito, e não sossego enquanto não obtenho uma resposta convincente...
Outro dia, na casa da minha namorada, enquanto tentava esquecer desta dúvida cruel, eis que encontro, belo e formoso, um elefante... Verdade, minha namorada tem um elefante em casa... Pôxa vida!... Já faz um ano que ela me “guenta” e eu não havia percebido tal fato tão relevante naquela residência típica de descendentes de italianos, em meio a salames e polentas...
Já percebe-se qual foi a minha idéia no momento!... Durante longas horas, não conseguia pensar em outra coisa que não fosse partir para o lúdico e tentar enfiar aquele mamífero proboscídeo dentro da geladeira.
Tarde da noite, todos dormindo e nós a sós na sala... Meus olhos alternavam entre a geladeira e o elefante, não conseguíamos namorar em paz, até que dirigi-me para minha italianinha e supliquei:
- “Por favor, vamos tirar a teima?... Quero ver se é simples assim para colocar um elefante na geladeira. Você abre a porta do refrigerador e eu soco o bichinho lá dentro! Combinado?”
Foi o que fizemos e achamos exageradamente útil no momento. Não foi tão difícil, pois o elefante colaborou conosco sem fazer barulho ou reclamar.
E lá estávamos nós... Dever cumprido. Conseguimos provar a veracidade do mito que para colocar um elefante dentro da geladeira, basta abrir a porta e colocá-lo lá dentro.
Já era madrugada quando voltei para casa e minha memória, que não é de elefante, já havia esquecido da questão elefântica que embalou nosso namoro até então.
Fiquei sabendo que no dia seguinte, o “sogro véio”, na hora do almoço com a família reunida, indaga surpreso e inconsolável:
“Quem foi o ’artista’ que colocou o elefante de cerâmica na geladeira?...”
Márcio Roberto Goes
Quem estou?... Onde sou?...