3 de outubro de 2026
Crônicas

31/05/2007

Por Márcio Roberto Goes

A IGNORÂNCIA DO BESOURO

Imagine que você tem a difícil missão de fazer um objeto quase esférico levantar vôo... Algo como fazer um fusca voar... Impossível! não é?

Claro, não existe aerodinâmica o suficiente para fazer um fusca planar, aliás, nenhum automóvel tem: apesar de alguns motoristas insistirem nessa idéia absurda acelerando inconstantemente seus carros potentes, porém não voadores: Conseguem, algumas vezes voar com suas máquinas por alguns segundos, o problema é a aterrissagem nada confortável.

Pois bem. Imaginemos um besouro: tem gente que até tem medo deste bichinho cascudo, nojento e voador... Isso mesmo: voador... e ele é quase redondo, igual ao fusca, parecido com os automóveis mais modernos e construídos com tecnologia de ponta para percorrer maiores distâncias terrestres em menor tempo e com o maior conforto possível.

Porque o besouro voa? ... Se dependesse de mim, ele nunca sairia do chão, pois quando bate suas asas, deixando-as ultrapassar a barreira do exoesqueleto, faz um ruído impertinente o suficiente para tirar a paz e o sossego de qualquer ambiente familiar distinto e amigável, sem falar nos gritos das moças desesperadas, quando ele resolve aterrissar em seus cabelos preparados com xampus e condicionadores compostos por cento e não sei quantas proteínas e vitaminas, que deixam suas mechas mais brilhosas e cheirosas e tudo o que menos desejam são as garras desagradáveis deste inseto.

Mas o que faz um besouro voar?... Ninguém lhe deu este direito, pois ele não tem nenhuma aerodinâmica, sofre constantemente quando encontra-se de pernas para o ar  tentando voltar a sua posição normal, além de não ter noção do perigo ao arremessar-se contra as luzes de um poste...

A triste e cruel verdade é que o besouro não foi feito para voar: ele voa de teimoso mesmo, ou melhor, de ingênuo... e de uma ingenuidade tamanha que não o deixa perceber seu maior defeito.

Mas se ele não foi feito para voar, então porque ele voa?... A resposta é muito simples e elementar: Por que ninguém foi ousado o suficiente para dizer-lhe que não pode, e mesmo que tentassem dizer a verdade, nada mudaria, afinal ele não ouve nada mesmo...

Quem dera se todos os seres humanos tivessem a ignorância do besouro e criassem um bloqueio para as expressões: “você não pode” e “você não consegue”. Creio que a maioria de nossos fracassos devem-se a nossos ouvidos que insistem em nos trair acreditando nesta falta de capacidade que o mundo insiste em alimentar na sociedade.

O besouro incomoda porque voa quando a maioria pensa que ele não deveria fazê-lo, pois  é insuportável vê-lo nas alturas, mesmo sofrível e ruidosamente enquanto rastejamos como cobras traiçoeiras no nosso mundinho de terra seca com nossos problemas e depressões do mundo moderno que nos empurra cada vez mais para o abismo intelectual.

Infelizmente, propaga-se o amor ao caos. Devemos marchar até onde o mercado de trabalho exige, e na direção que ele quiser. O capitalismo não nos permite voar, e quando alguém tenta, é tratado a chineladas, como o besouro, pois seu vôo barulhento incomoda àqueles que adoram rastejar nos seus problemas, em silêncio e propagando a divulgação fétida da pseudo-felicidade em que se encontram.

Ah! Quem dera tivéssemos a surdez e a ignorância do besouro, sem medo de fazer barulho nas alturas... sem medo do esforço que isso pudesse exigir... sem medo das reclamações daqueles que rastejam em busca de vítimas para seus desafetos... Sem medo de ser feliz e fazer felizes aqueles que se encontram ao nosso redor... sem medo de ser besouro.

Márcio Roberto Goes
Quase tão ignorante quanto o besouro...

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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