3 de outubro de 2026
Crônicas

17/02/2012

Por Márcio Roberto Goes

Martinha

Ela estava desempregada... Sempre foi uma pessoa simples, mas por onde passou, deixou sua marca registrada de boa profissional: vendedora, atendente de posto de gasolina, caixa de supermercado e panificadora, microempresária. Esta última experiência frustrou-a profundamente após a falência...

Agora, inflava as estatísticas daqueles que procuravam um emprego. Estava só, com dois filhos e uma vida cheia de altos e baixos... Precisava dar a volta por cima... Precisava reagir... Parece que as forças já não eram as mesmas... As oportunidades já não sorriam para ela como outrora... Sofria a discriminação doída daqueles que se acham os juízes da vida alheia... Não tinha mais perspectiva de avanços... Só tinha a oitava série do ensino fundamental. Seria difícil conseguir um bom emprego com tão pouco estudo, apesar da grande e eclética experiência adquirida durante anos de dedicação por onde passou... Mas tanto empenho só engordaram o bolso de seus patrões e a deixaram na sarjeta, sem voz, sem oportunidades, sem futuro...

Porém, o destino a levou até o melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas: uma escola pública. Não era o melhor trabalho do mundo. Tinha que pegar na vassoura, usar luvas de borracha que deixavam suas mãos com um odor desagradável, principalmente quando precisava limpar os dejetos dos gênios e futuros gênios distraídos o suficiente para errar a mira do vaso sanitário e evitar a fadiga de dar descarga no momento oportuno. Calçava botas de borracha, lavava o chão por onde transitava o conhecimento, as paredes onde brotavam a sabedoria e as escadas por onde desciam e subiam os conteúdos que tornariam melhores os seres que por ali passavam...

Seus dotes foram logo identificados. Agora estava na cozinha. Sua função era preparar o lanche dos mestres e seus discípulos... Que maravilha! Poderia usar seus conhecimentos culinários para melhorar a vida das pessoas ao seu redor através do paladar... Estava feliz! Fazia seu trabalho simples e desvalorizado por alguns com muito amor... Recebia elogios, pedidos... Conversava com todos, sem discriminação... Servia com carinho, desde o mais humilde aluno até o professor mais cheio de títulos... Sentia-se cansada no final do dia, porém realizada por ver cada sorriso, cada agradecimento sincero à tia da cozinha... “Deus que ajude, tia!... O lanche estava delicioso!”... Diziam os alunos mais educados...

Mas, na concepção de alguns, ela não poderia continuar ali. Era muito para uma servente... Conseguiram fazê-la voltar ao lugar de onde nunca deveria ter saído... Enquanto limpava uma sala de aula, subitamente para, encosta o cotovelo na vassoura e observa lentamente as carteiras, o chão por limpar, o lixo por recolher, as cortinas balançando ao vento como bandeiras da paz, parecendo chamá-la para aquele mundo, o quadro branco... Viu tudo com outros olhos, com olhos de sonhadora. Lembrou-se de todas as batalhas vencidas até então. Sempre foi forte e corajosa, nunca deixou a desejar no seu trabalho... aquele ambiente lhe chamou especial atenção...

Vinte e cinco anos depois, ela volta aos bancos escolares. Matricula-se no magistério, curso que prepara bons professores, expondo-os a conhecimentos que nem mesmo a faculdade proporciona... Volta no tempo, compra alegremente seus materiais e dedica-se de corpo e alma a uma nova, fascinante e edificante profissão... Durante o dia, continuava limpando e organizando, discretamente a vida escolar de professores e estudantes, ouvia muitas críticas, sofria muitas discriminações, mas continuava lá, cumprindo seu papel, fazendo sua parte para o bem da educação pública... À noite, mesmo cansada da labuta, sentava na cadeira do aluno... Estudava, buscava o conhecimento, pesquisava, errava, acertava... Descobriu, inclusive as maravilhas do mundo virtual que a ajudou na busca por conhecimento... Aprendia a aprender novamente... Aprendia a ensinar...

“Não vai aguentar muito tempo!”... Cochichavam em segredo os mais pessimistas ao seu redor... “Você é especial!”... Diziam-lhe outros... Quando queria desistir, alguém lhe batia no ombro e dizia: “Vá em frente! Você é capaz de vencer novamente! Aqueles que te humilham hoje, num futuro muito próximo a verão largando a vassoura para abraçar os livros e os pincéis a fim de ajudar as crianças e jovens em busca do conhecimento...”

“O problema não é limpar banheiro...” Dizia ela... “O problema é aguentar desaforos, todos os dias, daqueles que se julgam melhores...” E como tem gente que se acha melhor que os outros...

Mas ela era persistente e, com sucesso, concluiu os quatro anos de magistério... Nem acreditava ao receber o diploma... Noites de sono perdidas, estágios, relatórios feitos e refeitos tantas vezes... Mas não bastava, afinal continuava limpando fezes e aguentando insultos durante o dia... Ela queria mais. Só mais um pouquinho!... Passou no vestibular para Artes Visuais e, ainda na primeira fase, assumiu algumas aulas na educação de jovens e adultos numa cidade vizinha... Sua rotina continuava corrida: De dia servente... À noite, pegava a estrada cheia de curvas até Rio das Antas para lecionar e, nos finais de semana, ocupava um lugar nos bancos acadêmicos... Continuava, pacientemente servindo alunos e professores com carinho... Continuava estudando e buscando mais conhecimentos... Mas agora, em alguns momentos, era a professora, amada e respeitada pelos alunos que, como ela, não tiveram a oportunidade de estudar no tempo certo... Seu testemunho fazia seus amigos estudantes acreditarem que nunca é tarde para tomar a decisão de aprender...

Porém, o contrato de professora era temporário e acabou... Ficou triste... É assim que ficam os professores que educam com o coração quando não podem mais continuar em sala de aula... Seu trabalho de servente também estava sofrendo duras críticas e não podia mais voar. Suas asas estavam machucadas, seu exoesqueleto de besouro teimoso, danificado... Não suportou a pressão e “chutou o balde”... Não teve direito nem mesmo ao aviso prévio. Saiu da mesma forma que entrou, sem nada, sem dinheiro, sem emprego, sem dignidade... Mas olhava o infinito... Mesmo sem emprego, sentia-se feliz...

Sua esperança a levou a inscrever-se no concurso de ACT (Admitido em caráter temporário) na rede estadual... Primeira chamada nem chegou perto da sua classificação, segunda chamada... nada... Terceira chamada. Estava lá a Martinha, carregava uma história única e, apesar do meio século de vida, trazia nas veias o desejo juvenil de contribuir para a melhoria da escola pública... As vagas passavam, apagavam-se do telão uma a uma... Desanimou. Deu alguns passos até a porta de saída, mas alguma coisa lá dentro de seu coração segurou seu corpo naquele recinto, como que dizendo: “Você chegou, com muito custo até aqui. Não é hora para desistir...” Não demorou muito até chamarem seu nome. Meio desconfiada aproximou-se da mesa e, ao sair de lá, trazia nas mãos a conquista de anos de luta contra a discriminação e humilhação... Um contrato de quarenta horas semanais numa das principais escolas públicas estaduais de Caçador, onde há décadas havia cursado o ensino fundamental... Ali nascia uma nova artista... Uma nova professora calejada pelos tropeços da vida que agora estava apta a entrar na escola pela porta da frente e ficar, diuturnamente no melhor ambiente para se relacionar com seres humanos: a sala de aula...

Com certeza, seus alunos, orientados por ela, saberão o valor de cada trabalho dentro da escola e colaborarão com a ordem e limpeza do ambiente escolar, pois ali está uma ex-servente que hoje tem a responsabilidade de auxiliar na limpeza da alma e do coração daqueles que serão o futuro da nação...

Márcio Roberto Goes

Sobre a coluna

Márcio Roberto Goes

Coluna Crônicas

Professor de Língua Portuguesa, língua Espanhola e suas respectivas literaturas, efetivo na rede estadual de ensino de Santa Catarina, graduado em Letras pela Unc, antigo campus de Caçador e especialista em análise e produção textual pela FAVEST. Escritor, palestrante, diretor artístico e locutor da Web rádio Ativa Caçador. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes.

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