A estudante Fernanda Caetano, de 20 anos, viajava de Santa Cecília para Caçador, onde fazia universidade, quando o ônibus em que ela estava bateu de frente com um caminhão desgovernado. A jovem morreu em 22 de fevereiro, três dias após o acidente. Os dois motoristas também não resistiram. Na última terça-feira, a polícia encerrou o inquérito: Danilo Kubis, que guiava o caminhão, havia consumido cocaína.
Esse é um dos casos que a resolução 529 pretende evitar. A norma, com força de lei, obriga que motoristas das categorias C, D e E (de vans, ônibus e caminhões) passem por exame toxicológico — espécie de antidoping — para receberem ou renovarem a carteira de habilitação. Mas o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) adiou o início da obrigação quatro vezes.
O teste num fio de cabelo conseguiria detectar se o motorista usou drogas como anfetamina e cocaína até 90 dias antes. Um resultado positivo impediria a retirada ou renovação da carteira. A medida entraria em vigor amanhã, mas o Contran decidiu passar para o primeiro dia de 2016 — um ano e oito meses depois de a resolução ter sido publicada.
— Esses motoristas usam substâncias para aumentar a jornada no caminhão, colocando todos em risco — afirma Fernando Diniz, criador da ONG Trânsito Amigo, que cobra uma postura do Ministério das Cidades, ao qual o Contran é subordinado: — É preciso que explique por que tantos adiamentos. São 30 mil vidas que poderiam ter sido salvas nesses 20 meses.
O ministério informou que realizará estudos em conjunto com o Ministério da Saúde para definir os requisitos a serem exigidos dos laboratórios, mas não respondeu por que isso ainda não foi feito.
Jovem fica paraplégica
Toda a região Oeste de Santa Catarina ficou barbarizada com o acidente. O ônibus estava indo do município de Santa Cecília para Caçador com 47 universitários. Fernanda morreu e os outros ficaram feridos. Uma das jovens ficou paraplégica.
— É lamentável que essa resolução esteja sendo adiada. Eles aprovam tanta coisa que não interessa à população e isso, que pode salvar vidas, demora — defende Lucimara Nascimento, de 27 anos, prima de Fernanda.
A família já esperava que o motorista estivesse sob influência de “rebite”, substâncias como a anfetamina, que deixam o motorista acordado durante várias horas. Segundo Lucimara, fotos no Facebook do caminhoneiro envolvido no acidente mostravam diversos comprimidos que seriam da droga.
Uma pesquisa publicada no fim do ano passado apontou que 13% dos motoristas admitiram usar “rebite”. O estudo foi realizado pela concessionária Arteris com caminhoneiros que trafegavam pelas estradas administradas pela empresa. O mesmo levantamento mostrou que os motoristas de caminhão chegam a ficar 18 horas do dia trabalhando no trânsito.
A pesquisa ouviu 2.358 caminhoneiros em rodovias de São Paulo no último agosto.
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