3 de outubro de 2026
Revolta

Senado faz sessão especial sobre a Guerra do Contestado

Conflito, que aconteceu na região de Caçador, foi apresentado em Brasília

Por Caçador Online

O Senado realizou nesta quinta-feira, 8, uma sessão especial em homenagem à Guerra do Contestado. No Plenário havia estudantes de escolas públicas de Santa Catarina, vencedores do concurso de redação "Eu amo Santa Catarina".

Eles estavam acompanhados de seus professores. Também participou da solenidade o secretário de Articulação Nacional de Santa Catarina, o ex-senador Geraldo César Althoff.

A sessão foi realizada por solicitação do senador Raimundo Colombo (DEM-SC). Ele sustentou em discurso, em sessão especial para lembrar a Guerra do Contestado (1912-1916), em Santa Catarina, que ela foi "a maior e mais violenta revolta civil da República", envolvendo a metade do Exército Brasileiro. Ele explicou que o conflito aconteceu por vários motivos - desmandos de coronéis, empresas ambiciosas, religiosidade popular, medo da volta da monarquia e uma briga entre o Paraná e Santa Catarina pela definição de suas fronteiras.

Raimundo Colombo disse que apesar da importância do conflito, ele é pouco pesquisado, pois foi um movimento local e aos historiadores interessam mais os assuntos que tiveram repercussão nacional. Para ele, muitos movimentos sociais do interior brasileiro recebem destaque "não porque tiveram importância ou significado, mas porque, como no caso do Conflito de Canudos, foram tratados por um escritor do porte de Euclides da Cunha".

“Meus avós mostravam onde havia cemitérios em que foram enterrados os envolvidos no embate”, lembrou, acrescentando que o número de mortos é difícil de ser estimado, embora se fale até 20 mil.

A senadora Ideli Salvati apontou a importância da reflexão sobre as razões da Guerra do Contestado. “Esse espírito lutador e solidário do povo do Contestado sempre norteou as reivindicações de todo o povo catarinense, esses homens e mulheres de um estado que, me orgulho em dizer, não é formado só por latifúndios, mas principalmente por pequenas propriedades rurais, que com seus pequenos agricultores ajudam a garantir a oferta de alimentos para a nação”, disse.

Filme
O secretário de Turismo, Cultura e Esporte de Santa Catarina, Gilmar Knaesel, informou que o cineasta Silvio Back deve finalizar até o final do ano um filme sobre a Guerra do Contestado. Ele explicou que a estrada de ferro, cujo início da construção completa 100 anos em 2010, está tendo alguns trechos restaurados.

O que foi a Guerra do Contestado
A disputa travada entre as províncias do Paraná e Santa Catarina, pela área localizada no planalto meridional entre os rios do Peixe e Peperiguaçu, estendendo-se aos territórios de Curitibanos e Campos Novos era antiga, originada antes mesmo da criação da província do Paraná, em 1853, permanecendo em litígio até o período republicano.

Em 1855, o governo da província do Paraná desenvolvia tese de que a sua jurisdição se estendia por todo o planalto meridional. Daí em diante, uma luta incessante vai ter lugar no Parlamento do Império, onde os representantes de ambas as províncias propunham soluções, sem chegar a fórmulas conciliatórias.

Depois de vários acontecimentos que protelaram as decisões - como a abertura da "Estrada da Serra" e também a disputa entre Brasil e Argentina pelos "Campos de Palmas" ou "Misiones" - o Estado de Santa Catarina, em 1904, teve ganho de causa, embora o Paraná se recusasse a cumprir a sentença.

Houve novo recurso e, em 1909, nova decisão favorável a Santa Catarina, quando, mais uma vez, o Paraná contesta. Em 1910, o Supremo Tribunal dá ganho de causa a Santa Catarina.

A Guerra do Contestado e as operações militares
A região contestada era povoada por "posseiros" que, sem oportunidade de ascensão social ou econômica, como peões ou agregados das grandes fazendas, tomavam, como alternativa, a procura de paragens para tentar nova vida.

Ao lado desses elementos sem maior cultura - mas fundamentalmente religiosos, subordinados a um cristianismo ortodoxo - vão se congregar outros elementos como os operários da construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, ao longo do vale do rio do Peixe.

Junto a esta população marginalizada, destaca-se a atuação dos chamados "monges", dentre os quais o primeiro identificado chamava-se João Maria de Agostoni, de nacionalidade italiana, que transitou pelas regiões do Rio Negro e Lages, desaparecendo após a Proclamação da República.

Após 1893, consta o aparecimento de um segundo João Maria, entre os rios Iguaçu e Uruguai. Em 1987, surge outro monge, no município de Lages. Em 1912, em Campos Novos, surge o monge José Maria, ex-soldado do Exército, Miguel Lucena de Boaventura, que não aceitava os problemas sociais que atingiam a população sertaneja do planalto.

O agrupamento que começou a se formar em torno do monge, composto principalmente de caboclos saídos de Curitibanos, se instala nos Campos do Irani. Esta área, sob o controle do Paraná, teme os "invasores catarinenses" e mobiliza o seu Regimento de Segurança, pois esta invasão ocorre, justamente, naquele momento de litígio entre os dois Estados.

Em novembro de 1912, o acampamento de Irani é atacado pela força policial paranaense e trava-se sangrento combate, com a perda de muitos homens e de grande quantidade de material bélico do Paraná, o que fez desencadear novos confrontos, além do agravamento das relações entre Paraná e Santa Catarina.

Os caboclos vão formar, pela segunda vez, em dezembro de 1913, uma concentração em Taquaruçu, que se tornou a "Cidade Santa", com grande religiosidade e, na qual, os caboclos tratavam-se como "irmãos". Neste mesmo ano, tropas do Exército e da Força Policial de Santa Catarina atacam Taquaruçu, mas são expulsas, deixando, ali, grande parte do armamento.

Após a morte de outro líder, Praxedes Gomes Damasceno, antigo seguidor do monge José Maria, os caboclos se encontram enfraquecidos. No segundo ataque, Taquaruçu era um reduto com grande predomínio de mulheres e crianças, sendo a povoação arrasada.

Outros povoados, ainda, como Perdizes Grandes, seriam formados e diversos outros combates, principalmente sob a forma de guerrilhas, se travariam até que o conflito na região realmente terminasse.

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