3 de outubro de 2026
Experimento

Serpentário da UnC quer produzir soro antiofídico ainda este ano

Por Angela Cardoso/Folha da Cidade

Trabalho de coleta de peçonha recomeçou para garantir a quantidade necessária para a produção experimental

A queda brusca da temperatura esta semana, inibiu um pouco o trabalho de coleta de peçonha (veneno) das cobras do Serpetário da Universidade do Contestado (UnC), que funciona na Estação Experimental da Epagri de Caçador. O frio diminuiu o metabolismo das cobras, deixando-as mais fragilizadas. "Elas estão carregadas de veneno, sendo então esta a época ideal para a extração, mas a queda na temperatura de ontem para hoje, prejudicou o trabalho. Assim que o tempo esquentar um pouco, vamos reiniciar", informa Álvaro De Cesaro, responsável pelo Serpentário.


Álvaro De Cesaro e Marcos Massanau no processo de extração do veneno; um bom estoque é necessário para a produção experimental do soro antiofídico

A primeira coleta aconteceu em fevereiro, garantindo cerca de cinco gramas do veneno liofilizado (processo de retirada da água, transformando o veneno em cristais). Parece pouco, mas apenas uma grama do veneno de uma cobra pode ser a base de uma série de sub-produtos, como por exemplo a cola cirúrgia, feita a partir de uma toxina do veneno. "Esta cola é muito usada na cirurgia plástica porque não causa rejeição e não infecciona. Também com as toxinas, são feitos medicamentos para controle da hipertensão, para ação anestésica, entre outros. O soro antiofídico é apenas um dos sub-produtos do veneno", destaca. No entanto, o Serpentário da UnC, utilizará o veneno apenas para pesquisas e para a produção do soro antiofídico.

Cerca de 350 jararacas, 85 jararacuçus e 40 urutus passarão pelo processo de extração do veneno nos próximos dias. Mas o trabalho exige atenção especial para não prejudicar os animais.

De acordo com Álvaro, baias estão sendo preparadas para receber as cobras depois da retirada do veneno. "É preciso cuidado porque elas ficam debilitadas. Depois de cada extração, as cobras ficam numa baia separada e recebem uma dose de antibiótico e um reforço na alimentação para garantir sua total recuperação", relata.

Também é preciso observar a quantidade a ser extraída de cada cobra. "Não podemos tirar todo o veneno porque ele faz parte do processo de sobreviência do animal. Se ela vê que não tem veneno, ela nem vai na presa, aí pode morrer de fome", detalha.


Cerca de 350 jararacas, 85 jararacuçus e 40 urutus passarão
pelo processo de extração do veneno nos próximos dias

PESQUISAS- O objetivo principal do Serpentário da UnC é a produção de soro antiofídico e para isso, é preciso ter um bom estoque do veneno liofilizado. Com o uso de uma bomba de vácuo, imediatamente após cada extração, o veneno é transformado em cristais para garantir sua melhor conservação. "Se deixar exposto ao ar, em estado líquido, rapidamente ele desaparece", explica.

Segundo Álvaro De Cesaro, ainda este ano devem começar os experimentos para produção do soro, mas em pequena escala. "Se tudo der certo, aí vamos atrás de investimentos para iniciar uma produção maior, porque isso requer equipamentos especiais", explica.

Entenda como é produzido o soro antiofídico

A produção do soro é feita geralmente através da hiperimunização de cavalos. No caso do soro antiofídico, é extraído o veneno do animal peçonhento e inoculado em um cavalo para que seu organismo produza os anticorpos específicos para aquela toxina. Esse animal é o mais indicado para a atividade devido à facilidade de trato, por responderem bem ao estímulo da peçonha e pelo seu grande porte, o que favorece a fabricação de um grande volume de sangue rico em anticorpos.

A parte líquida do sangue, o plasma, rico em anticorpos passa por alguns processos de purificação e testes de controle de qualidade, para daí então estar pronto para o uso em humanos. As hemácias, que formam a parte vermelha do sangue, são devolvidas ao animal através de uma técnica de reposição para reduzir os efeitos colaterais provocados pela sangria.

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