O julgamento de Cláudia Tavares Hoeckler, acusada
de matar o marido e ocultar o corpo em um freezer em Lacerdópolis/SC, terminou na
noite de sexta-feira, 29, após dois dias de sessão no plenário da Câmara de
Vereadores de Capinzal, no Meio-Oeste catarinense.

Cláudia foi condenada a 20 anos e 24 dias de reclusão em
regime inicial fechado, por homicídio duplamente qualificado (asfixia e recurso
que dificultou a defesa da vítima), ocultação de cadáver e falsidade
ideológica.
Cláudia detalhou como matou e escondeu o corpo no freezer
A sessão foi interrompida na noite de quinta-feira, após
Cláudia passar mal durante o interrogatório. Ela precisou de atendimento do
Corpo de Bombeiros Militar. O julgamento foi retomado ao longo da manhã da
sexta-feira, 29.

Durante a fala, a ré reconstituindo fatos que, segundo ela,
antecederam o crime. Ela relatou que, nos 10 a 15 dias anteriores ao
assassinato, viveu episódios de agressões verbais e físicas, além de ameaças de
morte por parte do marido.
Cláudia contou que, após participar de uma confraternização
do Dia do Professor, Valdemir reagiu com ciúmes e a seguiu até uma
pizzaria, onde, segundo Cláudia, a vigiou à distância. Ao retornarem para casa,
após uma discussão, ele teria lhe dado um tapa, o que resultou em um pequeno
acidente de carro.
Nos dias seguintes, ainda conforme seu relato, as brigas
continuaram. A acusada relatou que custeava sozinha despesas como gasolina e
alimentação da família, enquanto o marido a obrigava a prestar contas de todos
os gastos.
Um dos momentos mais tensos narrados pela ré envolveu a
tentativa de viajar com colegas e filhos para uma pousada. Cláudia disse que,
ao pedir autorização, foi novamente proibida pelo marido e agredida com tapas,
chutes e empurrões contra móveis.
Durante a briga, segundo ela, Valdemir afirmou:
“Se você for, eu mato você. Quer ir? Vai. Mas quando voltar eu mato você”.
Cláudia declarou que já havia ouvido ameaças semelhantes em outras ocasiões,
mas que elas se intensificaram nos últimos dias antes do crime.
Rotina de controle e isolamento
Cláudia também descreveu uma rotina doméstica rígida, em que
se responsabilizava por preparar todas as refeições frescas e organizar roupas
para o marido diariamente. Ela afirmou que, após um ano e meio de terapia,
passou a compreender que a relação era marcada por abusos e controle.

A acusada ainda disse que se sentiu mais vulnerável após a
morte do sogro, a quem considerava um protetor dentro da família e que, segundo
ela, defendia seu trabalho e a repreendia das agressões sofridas.
Planejamento do crime
Cláudia declarou que tomou a decisão de matar o marido por
acreditar que não sobreviveria mais dias naquela situação. De acordo com seu
relato, ela substituiu o conteúdo de cápsulas de remédio natural que o marido
tomava por comprimidos de zolpidem, um medicamento de efeito sonífero.
Após ele adormecer, amarrou pés e mãos com corda, colocou um
pano sobre o rosto dele e em seguida uma sacola plástica. Afirmou ter repetido
gestos que, segundo ela, eram praticados pelo marido contra ela durante
agressões: “Eu fiz o que ele fazia comigo, segurei o rosto dele, ele se
debateu, mas não conseguiu me pegar”, disse.
Execução e choque
No depoimento, a ré relatou que utilizou cerca de 20 mg de
zolpidem e que Valdemir não reagiu de forma efetiva devido ao efeito do
remédio. Após constatar que ele não respirava mais, afirmou ter ficado sentada
no chão, ao lado da cama, sem saber como agir.
Segundo Cláudia, o crime foi rápido e ela chegou a
pensar que o marido tivesse sofrido um infarto. “Achei que uma mulher como eu
não conseguiria matar um homem daquele tamanho”, declarou para a juíza.
A decisão de esconder o corpo no freezer
Segundo Cláudia, sua intenção inicial era conversar com a
filha, esconder o corpo e depois se entregar à Polícia Militar. Hoje, no
entanto, avalia que poderia ter deixado o marido na cama.
“Teria sido mais fácil se eu tivesse deixado ele lá. Eu não
sei por que coloquei corpo no freezer, até hoje me pergunto o porquê”, afirmou.
Ela relatou que tentou encontrar o pulso de Valdemir, mas
não conseguia confirmar a morte. Negou que tivesse intenção de esconder o corpo
para sempre ou de fugir.
Cláudia contou que retirou o corpo da cama com a ajuda de um
lençol, cuidando para que a cabeça não batesse, e tentou colocá-lo no freezer
sem sucesso. Após diversas tentativas, usou uma cadeira para impulsioná-lo até
conseguir acomodá-lo dentro do equipamento.
“Não sou fria e calculista. Eu joguei o corpo e o lençol de
forma rápida e fechei o freezer. Naquele momento parecia um pesadelo”, disse.
Consequências para a filha
No interrogatório, a Cláudia afirmou que o propósito de
amarrar o marido era evitar que ele pudesse atacá-la novamente. Ela também
falou sobre o impacto do crime na vida da filha, que, segundo ela, estava há
cinco anos sem falar com o pai, mas ainda o amava.
“Eu sei que tirei dela a possibilidade de perdoar e ser
perdoada pelo pai. Essa é uma dor que jamais vou conseguir apagar”, declarou.
Ao final da fala, Cláudia chorava muito e destacou que a
filha faz terapia e, mesmo sabendo do crime, acabou perdoando a mãe.
Testemunhas
Foram ouvidas 12 testemunhas, seis indicadas pela acusação e
seis pela defesa. Primeiro falaram as testemunhas de acusação, depois as de
defesa. Os jurados puderam encaminhar perguntas por meio da juíza presidente.
Interrogatório da ré
Após a fase de testemunhas, a ré, que matou o marido e
escondeu corpo no freezer, foi interrogada. A juíza conduziu as perguntas
iniciais e, depois, abriu espaço para questionamentos da acusação e da defesa.

Os jurados também puderam formular perguntas, mas sempre
mediadas pela magistrada. A ré, no entanto, tem o direito constitucional de
permanecer em silêncio.
Debates entre acusação e defesa
Concluídos os depoimentos, iniciou-se o debate entre
Ministério Público e defesa. Cada parte teve uma 1h30min para expor suas teses,
sempre começando pela acusação. Caso houvesse réplica e tréplica, cada lado
teria mais 1 hora para se manifestar.
Votação dos jurados
Depois dos debates, a juíza apresentou os quesitos que
seriam votados. Os jurados se reuniram em uma sala reservada, onde
votam de forma secreta. O resultado foi definido pela maioria.
Sentença da mulher que matou marido e colocou corpo no
freezer
Com o resultado da votação, a juíza elaborou a sentença e
retornou ao plenário para anunciar a decisão final. A sessão contou com
intervalos para almoço, lanche e jantar, caso se estendesse até a noite.
Atuação do Ministério Público
Todas as teses do Ministério Público de Santa Catarina foram
acolhidas pelos jurados.
Os Promotores de Justiça Rafael Baltazar Gomes dos Santos e
Diego Bertoldi conduziram a acusação, desmontando a tese de que a vítima
cometeu o crime porque sofreria violência doméstica.

Com informações: MP, NDMais e TJSC