Toda vez que um bar raiz fecha as portas, morre um pouco com ele uma parte da cidade. Morre um pedaço da história, da memória, da conversa sem pressa, da vida boêmia. E foi isso que aconteceu nestes dias em Caçador, com o fechamento do Bar Marabá.
Sou do tempo do Bar Marabá, do bar do Clube 7, do Bar Líder, do Bar do Idalino, do Bar do Manfrói, do Bar do Frigeri, do Danúbio Azul e de tantos outros bares raiz que fecharam suas portas ao longo do tempo na minha querida Caçador.
O Marabá não era apenas um bar. Era uma instituição. Um daqueles lugares que a gente não precisava combinar para encontrar alguém. Bastava entrar. Havia sempre um conhecido no balcão, uma mesa ocupada, uma conversa atravessada por outra, uma notícia chegando antes do jornal.

Por mais de seis décadas, o Marabá fez parte da paisagem afetiva de Caçador. Teve diferentes proprietários, diferentes épocas, diferentes fregueses, mas manteve aquilo que poucos lugares conseguem preservar: a alma de bar.
Conta-se um episódio que o local era um reduto tão machista que a primeira mulher a entrar no Marabá foi atriz francesa Dorothée Marie Bouvyer, que esteve em Caçador, em 1971, filmando a Guerra dos Pelados, de Sylvio Back.
Ela teria entrado e pedido uma carteira de cigarros ao Ranulfo, um dos antigos proprietários. A surpresa dos frequentadores foi tanta que o bar permaneceu em silêncio pelos longos minutos que ela esteve no recinto.
Conheci o Marabá ainda na adolescência, quando cheguei a Caçador. E uma das minhas lembranças mais fortes são as mesas de sinuca profissional. Ali desfilavam os grandes talentos da cidade.
Para assistir a uma partida já era difícil; imagine conseguir jogar. Vinham jogadores de outras cidades. Eram os malandros da sinuca, com seus tacos especiais. Havia dinheiro envolvido, apostas, rivalidades e aquela silenciosa concentração de quem sabia que uma tacada errada podia custar caro.
Mas o Marabá nunca foi apenas sinuca e o carteado que rolava no pano verde em uma sala reservada.
Era feijoada. Era pastel. Era lanche. Era cerveja gelada. Era almoço de quem trabalhava no centro e também de quem vinha do interior resolver algum negócio na cidade. Era o lugar onde ricos e humildes dividiam o mesmo espaço, às vezes a mesma mesa, quase sempre a mesma conversa.
No Marabá se ia para comer, mas também para saber das novidades. Para encontrar alguém. Para esperar alguém. Para matar o tempo. Para começar uma amizade. Para discutir política, futebol, negócios e a vida alheia — porque bar de verdade também precisa disso.
Por isso o fechamento do Marabá marca um momento.
Marca porque o Marabá não será simplesmente substituído. O endereço continuará existindo. Em seu lugar, dizem, virá uma padaria. E nada contra as padarias. Toda cidade precisa de pão quente. Mas uma padaria não substitui um bar. Assim como uma nova construção não devolve uma casa onde tantas histórias aconteceram.
Caçador perde um lugar de memória. Amantes de bares raízes lamentarão.

E uma cidade que perde seus lugares de memória vai ficando mais pobre, mesmo quando fica mais moderna.
O Marabá fechou as portas. O Nide, último proprietário está abrindo um café na rua Carlos Sperança, mas certas portas, quando se fecham, continuam abertas dentro da memória da gente.
O crédito das fotos é do Javel Euriques.